QUE RAIOS É?

capa“Cinema-verdade? Prefiro o cinema-mentira. A mentira é sempre mais interessante do que a verdade”, disse famosamente Federico Fellini. Muito já foi dito sobre a chamada natureza embusteira do cinema, o suposto caráter alienante da sétima arte, encarnado no refúgio da sala escura. Essa premissa, uma das forças motoras de “Filme de Rola”, último conto do livro, um passeio pelos popularmente infames “cinemões” de São Paulo – e, de quebra, pela angústia existencial nossa de cada dia – aplica-se facilmente não só à ficção literária, mas a este volume.

“A Última Edição” engana o leitor desde o começo. A despeito do título, trata-se, na verdade, de uma primeira edição, um esforço conjunto de cinco amigos paulistanos que pouco têm em comum estilisticamente. É claro, é possível traçar alguns paralelos entre os contos – a paisagem urbana é uma constante, e uma boa dose de surrealismo permeia muitas das histórias – mas, ao fim e ao cabo, é a diversidade que pauta esta compilação. O olhar e o estilo singular de cada ficcionista se somam, criando universos tão distintos quanto imagéticos em que, muitas vezes, o que parece banal revela não sê-lo.

É neste cenário plural que desfilam tipos como o personagem-título de “Rubens” – meio homem, meio máquina que, embrutecido pelo trabalho na indústria e pelo tédio cotidiano, leva seus instintos às últimas consequências; Lenise Pataróca, de “Por Causa do Mini Buraco Negro, Lenise Virou Linese”, escritora parnasiana de prestígio (!) e vizinha de um cientista de garagem; reis suburbanos como Sivâncio (“cartola de barbeiro, jogador de biriba, sex appeal do Jabaquara”), investigados em “Trinta e Três Suspeitos”; Lorencio, o irmão cabrón de um refugiado cubano acolhido em Miami pelo primo michê, de “Encontro com Fidel”; e a detetive perturbada pela história de Dona Yayá, personagem histórica de São Paulo, de “Desatinos de um Noir Invertido”, entre outros.

Uma vez acendidas as luzes, tendo passado nosso tempo com eles, comprova-se o pensamento de Fellini. Ou talvez, para ficar mais no terreno da literatura, seja melhor para definir esta coletânea a máxima de Ferreira Gullar: “A arte existe porque a vida não basta”.

– Fernanda Botta, jornalista e tradutora

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s