O Diabo vai ao velório

devil angel

A convite de parentes, viajei pra Caconde, cidadezinha que há muito não visitava. População: cerca de 19.000 habitantes. Centro pequeno, uma igreja católica enorme, algumas igrejas evangélicas aqui e acolá, dois mercados, lojinhas de roupas e, como não podia faltar, BARES.

Por ali é comum ser saudado por um “BOM DIA”! Infelizmente, durante o passeio, um parente veio a falecer e, para não fugir à regra, fui ao velório. E fui de carona. Velórios são sempre iguais. Não que eu seja especialista no assunto. Já fui em três: o do meu pai, o da mãe de uma ex-namorada e este. E é sempre a mesma coisa.

Familiares se debulham em lágrimas próximos ao corpo inerte. Mulheres, óculos escuros, NARIZES ESCORRENDO, lenços trabalhando, conversas sobre o falecido e amenidades do cotidiano. Mas, reuniões como essa são uma oportunidade de reencontrar pessoas que não vemos há tempos.

Sou um parente que nunca dá as caras, então, acabei CONHECENDO muitos familiares ali. Costumo esquecer o rosto das pessoas, então, nunca sabia quem era quem. Ei, quem é esse me abraçando?

Sou meio tímido. Fiquei de canto, queria sair fora o mais rápido possível. As pessoas me olhavam de maneira curiosa, tipo: “esse sujeito não é daqui.” Verdade seja dita, em Caconde não são todos que tem barbão, tatuagens nos dois braços e camiseta com estampa do Johnny Cash mostrando o DEDO DO MEIO. Finalmente, um rockabilly que frequenta mesmo a roça!

Com a cara enfiada no próprio rabo, fiquei esperando. Então, um sujeito CARECA DE OLHOS AZUIS me cumprimentou. Que surpresa! Ele disse que conhecia meu pai e se lembrava de mim quando pequeno.

Sabia que eu era de São Paulo e me contou algumas aventuras. Disse que foi morador de rua, conhecia a Augusta, BOCA DO LIXO, Major Sertório… Enfim, só lugares bem frequentados e finos. Respondi que não apenas conhecia esses locais, como já tinha andado muito por ali. Fui interceptado por ele:

“Já comeu muito viado, ali?”

Não perdi meu humor. AQUELE ERA DOS MEUS! Sem essa de ficar fingindo-se uma pessoa perfeita, defensora dos bons costumes. Ficamos boa parte do tempo conversando, rimos bastante. O pessoal do velório olhava feio pra gente. Bem, eu era mesmo um estranho na cidade. Então nem liguei.

Me despedi e fui embora. No caminho de volta, minha avó revelou. Aquele sujeito era uma péssima pessoa: EX-TRAFICANTE DE DROGAS, ladrão, malandro… Enfim, se não era a pior pessoa da cidade, estava entre as piores. Na mesa do jantar, com os primos e os tios, foi a mesma coisa:

“Ah! Eu não cumprimentei aquele sujeito por educação (é isso mesmo! Pode-se NÃO cumprimentar alguém por EDUCAÇÃO), sabe? Não sei como um sem-vergonha daquele ainda teve coragem de aparecer do velório”!

Diante das caras feias me olhando, eu ri.

Eu tinha falado com o ZECA, o desterrado da cidade, o UNDERGROUND DE CACONDE.

(Lucas Formaglio)

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