O outro lado dos jogos de guerra

A grief stricken American infantryman whose buddy has been killed in action is comforted by another soldier. In the background a corpsman methodically fills out casualty tags, Haktong-ni area, Korea. August 28, 1950. Sfc. Al Chang. (Army) NARA FILE # 080-SC-347803 WAR & CONFLICT BOOK #: 1459

A guerra talvez seja um dos temas mais explorados em jogos. Não é apenas pelo fato de se encaixar perfeitamente com o entretenimento, mas também com a ação. Tanto é que o considerado pai do gênero FPS (First Person Shooter), ou jogos em tiro em primeira pessoa, Wolfenstein 3D (ID Software, 1992), narra a história de um agente secreto preso durante a Segunda Guerra Mundial que, após escapar, acaba por enfrentar o próprio Hitler.

Outros títulos famosos, quase impossível não reconhecê-los hoje, são de grandes franquias, como Call of Duty e Battlefield. Tais títulos não passaram apenas da Segunda Guerra Mundial para possíveis guerras atuais, mas muito além, foram para guerras futuras.

Esse fascínio pela guerra como temática de jogos é hoje um importante fator de vendas no mercado, não apenas por proporcionar diversão, mas também competitividade. Se assim não fosse, jogos como Counter-Strike não teriam tantas versões e não seriam um dos mais jogados ainda hoje. Há alguns meses escrevi um artigo sobre os jogos como forma de arte. Um dos assuntos abordados foi a diferença entre jogo de entretenimento e jogo como forma de expressão artística. Os jogos com temática de guerra, no geral, são voltados ao entretenimento. O jogador encarna em um soldado e cumpre sua missão, seja além da linha de combate ou se infiltrando em uma base terrorista.

Contudo, e o outro lado da guerra?

Me refiro ao lado humano, daqueles que não são soldados e acabam envolvidos em meio ao conflito. Por trás dos heróis armados e corajosos que lutam contra números e estatísticas para sobreviverem, cumprirem seus objetivos e saírem vitoriosos, há sempre uma história que prova o que Neville Chamberlain disse: “Em uma guerra, para qualquer lado que se proclame vencedor, não há ganhador, todos perdem”.

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Valiant Hearts: The Great War (Ubisoft, 2014) é um jogo que utiliza a temática da guerra para contar uma história sobre quatro personagens diferentes. Quando a Primeira Guerra estoura, a França começa a deportar os alemães em seu território. Karl é um deles, abandonando sua esposa, filho e seu sogro Emile, ele retorna à Alemanha e se vê obrigado a servir o exército. Emile tem o mesmo destino e é convocado pelas forças francesas.

Anna, a tenaz estudante belga que atua como enfermeira em meio às linhas de combate para encontrar seu pai, acompanhada do cachorro de guerra Walt, somado a Freddie, um soldado enviado dos Estados Unidos para auxiliar nas linhas aliadas, formam personagens tão bem trabalhados que, longe de procurarem glória ou desculpa para violência, buscam incessantemente voltar às suas vidas e famílias. Valiant Hearts não apenas cria uma história de reflexão sobre as atrocidades da guerra, mas mostra através de fatos reais, cuidadosamente estudados, como foi a Primeira Grande Guerra.

Nele, não há ação como em um jogo de entretenimento, existem pequenos puzzles que complementam a narrativa, cujo foco é voltado para um lado pouco explorado no tema: as pessoas por trás da ação e da violência. Não é para menos que essa história diferenciada e cuidadosamente trabalhada para se encaixar nos fatos históricos rendeu ao jogo o prêmio de Melhor Narrativa e de Jogos para Mudanças do Game Awards 2014.

Outro título que também procurou ousar com o tema é This War of Mine (11 Bit Studio, 2014). Utilizando o cenário de uma guerra atual em uma zona urbana, o foco é que “em uma guerra, nem todos são soldados”. Por trás da linha de frente, os civis tentam sobreviver a uma zona devastada pelos conflitos, onde alimento, água, medicamentos e abrigos são escassos. Em This War of Mine o jogador deve administrar as tarefas dos sobreviventes, ajudando a fortificar o abrigo deles durante o dia e procurando por suprimentos durante à noite.

Diferente de um jogo de guerra e de sobrevivência, o título carrega consigo um forte impacto nas decisões morais do jogador diante situações extremas. Decisões como: você roubaria medicamentos de um casal de idosos para salvar a vida de um de seus amigos? Você roubaria alimento de outra pessoa, não apenas para você, mas para as pessoas que te salvaram? Entre uma professora de jardim de infância e um atleta, quem você deixaria entrar em seu abrigo e quem você recusaria a ajudar, enviando-o de volta a uma zona onde não existem leis, apenas matança?

Não importa a decisão, não há boas decisões. Jogando, passei por uma das decisões acima. De roubar um casal de idosos cuja a esposa era muito doente e cega, ou deixar a casa em paz. Fiz o cenário duas vezes, em uma eu voltei para o abrigo, o que levou uma de minhas mais importantes sobreviventes a adoecer, mas alguns deles ficaram felizes por eu não ter me degradado à situação. Na segunda eu assassinei o idoso, roubei todos os suprimentos da casa e deixei a esposa dele à própria sorte, havia medicamentos e mantimentos mais que o suficiente. Alguns sobreviventes do abrigo elogiaram a decisão, outros entraram em tamanha depressão e angústia que não conseguiam mais fazer suas tarefas direito.

Esse tipo de consciência gerada por jogos como os mencionados, a procura de uma narrativa cujo objetivo é mostrar um lado oculto da guerra, longe de atos de bravura, táticas de guerra e assassinatos, This War of Mine e Valiant Hearts pertencem a um outro extremo do entretenimento. São títulos que geram reflexão e uma importante conscientização sob um ponto de vista, muitas vezes, negligenciado pelos jogos de ação que procuram a diversão como prato principal. Acredito que jogos como esses, que abordam uma perspectiva diferente de cenários de guerra, assim como filmes do cinema, caso de O Pianista (2002), ou na literatura com A Menina que Roubava Livros (Markus Zusak, 2005), complementam o entretenimento com uma crítica importante em relação à apatia provocada por jogos de ação e violência desenfreada.

Longe de dizer que esses gêneros sejam ruins, pelo contrário, eu mesmo jogo muitos desses títulos de ação e violência, eu os vejo como excelentes meios de aliviar o estresse. Contudo, pequenas pérolas como Valiant Hearts e This War of Mine trazem certo frescor à abordagem da guerra, a violência passa a ter um significado mais poético e, acima de tudo, atinge valores sentimentais que acompanham o jogador mesmo após o término dos jogos.

(Felipe Massahiro)

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