Lunguinha, o embaixador de Satanás

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Passei dois anos desempregado. Que aflição! Minha filha era pequena. Minha esposa estava sem trabalho. Vivíamos na casa de meu sogro, faxineiro aposentado. Ele dizia:

– Mercado de trabalho… Hoje é difícil, mesmo.

Me sentia humilhado. Autoestima lá embaixo. Fui ficando desanimado. Nem saía de casa. Ficava assistindo tevê, cuidando da minha filha, no computador batendo papo o Miltinho, amigo meu. Ele me disse que tinha a receita do sucesso.

– Alfredo, eu já passei por cada perrengue! Você sabe… O que me salvou mesmo foi um macumbeiro lá da zona leste. E de graça. Às vezes, seus caminhos tão fechados. Por que não tenta?

Me deu o endereço. Estação José Bonifácio. Só funcionava às sextas-feiras. Pois bem! Fui pra lá. Topei com uma grande avenida, muito mato em volta, algumas casas. Já estava bem escuro. Me senti amedrontado, mas o fluxo de pedestres era grande. Era uma casa de tijolinhos. Parecia em construção. No mercadinho ao lado, perguntei para a senhora do caixa:

– O centro do seu Lunguinha é essa casinha aqui ao lado?
– É – disse, bem seca.

Toquei a campainha. Fui recebido por um senhor. Devia ter por volta de 70 anos. Vestia roupa social e fumava um cigarro.

– O senhor que é o seu Lunga?
– Isso, meu filho. Entra, vai.

O interior da casa não lembrava em nada a fachada. Na sala havia uma tevê bem grande, cristaleira, móveis em estilo colonial, tapeçarias nas paredes.

– Fala. O quê você quer, filhinho? Que tá se passando na tua vida? Me fala!

Eu contei que as coisas não iam pra frente, que precisava melhorar de vida.

– Ah, menino! Eu tenho o que você quer. E nem vou querer dinheiro agora, não. Depois, quando você alcançá o que qué, aí tu me dá. Tá bom?
– Tá legal, seu Lunga.
– Óia, primeiro vai me prometer que não vai mais orar, tá?
– Nossa, mas por que?
– Ué, tu quer emprego bom e tranquilidade? Então tem que ser assim, do meu jeito. Quer ou não quer?
– Tá bom, então.
– Olha, anota num papel aí. Primeiro. Antes de você dormir, vai usar o dedo indicador esticado pra frente, apontar o norte e dizer “eu te saúdo, Diabo do norte”. Pro oeste, “eu te saúdo, Diabo do oeste”. E assim vai… Aí vai dizer: “Serpente Satã que do céu caiu, me devolve a força que de mim fugiu. Eu te entrego minha’lma pra tu devorar, mas te cobro dinheiro pra vida gozar”. Daí você faz um cortezinho no dedo e deixa pingar no chão. E fala “tá aqui minha entrada de sinal!”.
– Re-re. Só isso, seu Lunguinha?
– Só. Aí quando arrumar emprego bom, me dá os primeiro trezento real. Tá bom?
– Tá certo, então. É só isso?
– Só.

Me despedi e voltei pra casa. Não contei pra ninguém. Iam achar aquilo coisa de maluco. Antes de dormir, fiz o ritual, meio desacreditado. Acordei cedo e vi TV. Passava um documentário sobre as serpentes da Índia. Logo meu celular tocou. Uma mulher marcando entrevista de emprego: auxiliar de escritório. Salário bom: mil e setecentos reais com benefícios. Fui contratado.

Após o primeiro salário, separei trezentos reais pra levar na casa do seu Lunguinha. Chegando lá, toquei a campainha várias vezes. Nada. A caixa do mercado veio falar comigo:

– Oi, moço. Tá procurando seu Lunguinha?
– Sim, estou. Ele foi viajar?
– Não, moço. Seu Lunga morreu ontem.

Pensei: “tudo besteira esse negócio de pacto, enganação, mera coincidência”. Voltei pra casa feliz. Poderia usar pra mim os trezentos reais. Naquela noite, depois de colocar minha filha pra dormir e cobrir minha esposa no sofá, fui ao banheiro. Então ouvi uma voz, um jato espirrou no meu rabo. Parecia gente gritando debaixo d’água, gargarejando.

– Abreeedo, breeeuu bribreeeeeiiro!

Que porra era aquela? Devia estar ficando maluco, pensei. Mas continuava…

– Abreeedo, breeeuu bribreeeeeeiiiro!

Quando abri a tampa da privada, topei com um rosto formado por espuma da água e resto de merda. Era o seu Lunguinha. Assustado, dei descarga e pude ouvir sua voz bem nítida: “Alfredo, meu dinheiro!”.

Corri até o quarto. Tirei trezentos reais da carteira. Joguei na privada. Dei mais uma, duas, três, quatro, cinco descargas. A voz parou. Fiquei pensando: “e agora? Será que sossegou”? Eu devia ser só um maluco jogando dinheiro na privada. Após o incidente do banheiro, fui promovido muitas vezes. Grana? Nunca mais faltou. O problema é que a patroa não aguenta mais ir toda vez ao banheiro comigo.

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