Au, au!

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O estranho cachorro da vizinhança parecia muito ter saído de uma história de ficção. Não fuçava o lixo e nem corria pelas vielas, esnobava frangos giratórios e lixava-se para as sardinhas que o dono do açougue lhe jogava. Os ciclistas também passeavam tranquilos, e os gatos, nem se fala, reinavam sossegados em seus passos e pelos macios.

E como se não bastassem os não-hábitos estranhos do bicho, deu-se que um dia pegaram-lhe a correr atrás do carro de uma equipe de televisão. Bastou o repórter sair do furgão para mostrar um gato que ficara preso no alto da árvore, e o cachorro entrou na frente das câmeras a pular, a rolar e até mesmo dar alguns passinhos equilibrando-se nas patas de trás. Enxotado por um estagiário, colocou-se a chorar num canto.

De outra vez, perseguiu uma menina que mexia no celular, encurralando-a. Então latiu de uma forma realmente medonha e o som que saltava de sua garganta lembrava muito a voz de um ser humano. Era como se o animal pedisse alguma coisa. A garota, aos prantos, chamou seu pai. E o velho chutou a bunda do cão, que se pôs a chorar novamente num canto.

Era realmente difícil entender aquele cachorro, mas, certa vez, um garoto parou em frente ao animal e então lhe fez a pergunta que não queria calar.

– Mas o que você quer, afinal?

O bicho encarou-o, levantando a mandíbula e estufando o peito.

Um Emmy já estaria de bom tamanho! – latiu o estranho canino.

 

(Microconto: Rodrigues)

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