Guernica é o mundo todo – a desmistificação do homem nas vias da tecnologia

guernica

A Espanha atravessava uma sangrenta guerra civil. De um lado, os republicanos liderados por representantes bascos, os quais defendiam o estado democrático; de outro, a ala militar “anticomunista” e os simpatizantes do líder fascista Francisco Franco, que já tentara, sem sucesso, um golpe de estado contra o governo legalmente constituído. O ano é 1936.

O mundo acabara de sair de uma guerra mundial, fator de grande desestabilização econômica, o que abriu caminho para diversas mudanças políticas radicais em várias regiões do globo.

A história que se conta sobre o bombardeio de Guernica é circunspecta. A cidade é e sempre foi um quintão afastado no extremo norte do país, avizinhando-se geograficamente, e em costumes, da França. Diz-se que Franco, temendo uma nova derrota, pediu auxilio ao colega Adolf Hitler. O alemão viu nisto a oportunidade de testar, em grande escala, o poderio bélico levantado pelo Reich em menos de quatro anos.

Franco tencionava amortizar a resistência dos republicanos mas, diante da mãozinha nazista, viu-se em condições de causar estrondo junto aos situacionistas, aterrorizando-os e retardando, ou até mesmo dirimindo, qualquer iniciativa de contra-ataque.

A destruição de Guernica não teve precedentes históricos, mas foi o bastião de uma série de catástrofes ligadas aos conflitos bélicos entre países. A guerra total, como foi chamada a incursão e o despejo armamentício sobre civis, teve seu terrível ensaio em Guernica, cuja população não passaria dos sete mil habitantes. Destes, um quarto conheceu a morte pelos bombardeios ou foi cruelmente chacinada em fuga pelas metralhadoras das luftwafes. A cidade pode ter sido escolhida a dedo, mas era sabido que grandes representantes bascos possuíam algum tipo de ligação com o lugar, fosse por vínculo familiar ou pelo que ela já representava: a origem do povo basco, reunida sob a égide de um pé de carvalho, localizado no centro da cidade de Guernica e tomado até hoje como símbolo da origem daquele povo.

Picasso, artista já renomado, vivendo em Paris, soube do fato através da imprensa, como todo o resto do mundo. Instado pelo sentimento de devastação que lhe tomara o peito, decidiu representar o horror da guerra em uma enorme tela, de proporções muralísticas, e que seria batizada com o nome da cidade bombardeada. A ocasião de mostrá-la ao mundo aconteceria apenas alguns meses depois, na Paris International Exposition, em 1937. O nome oficial da feira era Exposition Internacionale des Arts et Techniques dans la Vie Moderne, e, segundo alguns críticos da obra de Picasso, a intenção do artista era, além de fazer com que a devastação de Guernica jamais fosse esquecida, alertar contra o poder destrutivo do avanço tecnológico, o que constrangeu os organizadores daquele evento.

A tela monocromática media três metros e meio de altura por oito de comprimento. De difícil transporte, ela teve que ser adaptada a uma armação dobrável, o que quase prejudicou todo o trabalho. Além disso, escapava a todas as considerações do belo na arte, ao que os apreciadores dos contemporâneos de Picasso estavam tão acostumados, ainda que o início do século XX tenha absorvido tendências inovadoras e desconstrutivistas aos montes. Picasso conseguira aterrorizar o mundo novamente, e desta vez dentro dos salões de Champagne.

É sabido que Picasso, assim como outros artistas da época, detestava interferir diretamente na percepção do público, o que torna a análise de determinadas obras um exercício de extrema dificuldade. Porém, se pode examinar alguns elementos importantes de Guernica mediante um conjunto singular de ícones bastante ventilados no correr dos séculos XIX e XX, nas artes e na cultura em geral.

Verifica-se, por exemplo, a presença metafórica da Pietá: no canto esquerdo, uma mãe segura seu filho morto nos braços, ela grita desesperadamente, enquanto duas outras figuras femininas, uma delas grávida, presenciam a cena em meio ao horror. Críticos e teóricos das artes plásticas afirmam que Picasso procurava uma imagem moderna que fosse ao mesmo tempo iconográfica e secular.

A figura à direita, consumida pelas chamas de um edifício, está de braços abertos, bem estendidos. Ela também é frequentemente comparada à figura central de “Os Fuzilados de 3 de Maio de 1808” de Francisco Goya, outra pintura iconográfica que retrata um período negro da história hispânica.

O touro, símbolo da mitologia espanhola que representa a opressão sobre os pobres, está tão desgovernado quanto o cavalo, a metáfora do povo (conforme o próprio Picasso diria anos mais tarde). Ambos os animais denotam um recuo do tronco no mesmo sentido, inverso ao da cavalgada, inatural. Esta é uma cena que alimenta muitas conjecturas, a maioria desprovida de qualquer sentido. Contudo, nos termos da livre associação, pode mesmo significar o rompimento dos padrões míticos e culturais, até então harmonizados na disputa figurativa entre o bem e o mal (o cavalo contra o touro). Com o surgimento da guerra e da destruição em proporções nunca antes imaginadas, o conflito harmônico é destituído de seu lugar mítico, dando lugar ao novo elemento opressor da humanidade: o desenvolvimento tecnológico, representado pela lâmpada em formato de olho no alto da tela, que ilumina partes da cena (o homem desfigurado e a espada quebrada, representantes da morte heróica) e deixa outras à penumbra (as faces femininas).

Ademais, críticos consideram a lâmpada-olho como o maior paradigma da obra. A figura do olho, tradicionalmente, diz respeito ao “olho que tudo vê”, o olho de Deus, uma tradição figurativa de milênios na história da arte. Quando Picasso coloca uma lâmpada dentro do olho, parece querer dizer que a unidade mística do homem foi rompida, rejeitada pela ciência do desenvolvimento tecnológico puramente utilitário.

Mas o cenário não se constitui apenas de horror, perturbação e destroços. Picasso coloca, logo abaixo da lâmpada-olho, uma vela. E na mesma linha vertical descendente, ao lado da espada quebrada, há uma flor. É preciso considerar que, mesmo diante da dor do quase extermínio de um povo, a humanidade ainda será capaz de brotar dos despojos de uma era. Ao menos na visão de Picasso. A genialidade, neste caso, resigna-se à esperança.

(Rogerio Brugnera)

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