Uma mulher entre operários e a realeza

florista

O dramaturgo irlandês George Bernard Shaw (1856-1950), ao lançar luzes sobre as peças mais importantes que escreveu, legou-nos longos ensaios sobre a estrutura sócio-psicológica de seus personagens principais. Tais ensaios são hoje considerados verdadeiros tratados sociais embasados por uma espécie de ética feminista/socialista, aos quais renderam ainda inúmeras controvérsias acerca de seus ideais fabianos, muito em voga na época vitoriana.

Embora a veia irônica de Shaw jamais tenha deixado atrás de si qualquer dúvida sobre suas considerações, no que diz respeito ao papel do socialismo nas artes ou em qualquer veículo de propaganda ideológica, o autor foi por diversas vezes taxado de idólatra, devido ao seu envolvimento apaixonado com a Internacional Socialista e sua apologia ao socialismo de Estado, mesmo durante a fase estalinista na URSS. Em outro momento, poucos anos antes da eclosão da Segunda Guerra, Shaw defendeu publicamente o extermínio de pessoas “inadequadas à sociedade”, alinhando-se ao nascente ideário nazi-fascista divulgado em obras como Mein Kampf, do então chanceler alemão Adolf Hitler.

A personalidade controversa de Shaw, de certa maneira, sempre esteve presente em seus escritos, fossem assuntos estéticos ou políticos. É durante a Primeira Guerra Mundial que ele publica o panfleto Common Sense About the War (1914), em que discute a responsabilidade britânica na falha das negociações de paz. Tal panfleto é apontado pelos críticos como fundamental para o entendimento dos desvios do pensamento de Shaw. Considera-se também que, durante a Segunda Guerra, Shaw teria desistido de publicar textos de cunho político em virtude de seu debilitado estado de saúde. Vê-se nisto, portanto, a antipatia que as publicações do dramaturgo causavam nos círculos intelectuais e o constante debate ideológico ao qual se submetia, não raro com muito gosto.

A linguagem tragicômica e não-realista utilizada por Shaw alcança patamares muito próximos à perfeição em Pygmalion: A Romance in Five Acts (1913), e se torna sua peça mais conhecida mundialmente. Nela, Shaw debocha da sociedade vitoriana, caracterizando-a como fútil, pretensiosa, cercada de bajuladores e alicerçada em ideais de nobreza que, às portas da modernidade, estariam ultrapassados.

Na década de 1910, a industrialização deixara de ser uma novíssima realidade para se tornar a realidade de fato, gerando profundas mudanças sociais em todo o mundo. O Reino Unido, por confundir-se entre os papéis de último representante do velho mundo e de berço do capitalismo, constitui a capital Londres em cenário adequado para a representação de dois conflitos modernos por excelência: a luta de classes e a mobilidade social, ambos ligados à demarcação de princípios éticos criados pela burguesia, esta sim, a verdadeira classe em ascensão.

A classe trabalhadora é representada pela personagem da florista cockney Eliza Doolittle, joguete nas mãos do professor de fonética Henry Higgins, filho da nobreza decadente que se vê eventualmente afetado pela necessidade de trabalhar para se sustentar.

Eliza é objeto de uma aposta, hábito comum da elite britânica, firmada entre Higgins e o amigo Coronel Pickering. O professor enfatiza que em poucas semanas seria capaz de tornar a florista, rude em hábitos e linguagem, uma perfeita dama, capaz inclusive de ludibriar a corte inglesa e todos os seus convidados em uma determinada festa.

Shaw explora o relacionamento entre Higgins e sua discípula Eliza, que passa do estranhamento mútuo à adoração sem excessos, ainda que nenhum dos dois assuma claramente suas inclinações sentimentais até o final da trama.

O mito de Pigmaleão foi amplamente utilizado nas artes, cujo personagem central era um artista cipriota que, decepcionado com a conduta libertina das mulheres da ilha, se decide pelo celibato. Ao esculpir a imagem da mulher perfeita em beleza e hábitos, apaixona-se pela própria obra, batizada Galatéa. Pigmaleão é então tocado pela generosidade de Afrodite e a escultura ganha vida, tornando-se uma mulher real.

Para Shaw, um final feliz entre Eliza e Higgins poderia ser conveniente, mas em nada revelaria a complexidade dos conflitos explorados nos quatro atos anteriores. A questão para o autor era muito clara: como Eliza poderia aceitar casar-se com o homem que a educou sob forte repressão dos instintos? A idiossincrasia de Eliza reside em se haver formado uma mulher detentora de seus próprios passos e de suas ideias, ainda que rudes, nas ruas de Londres, onde crescera no limite da necessidade material.

É importante lembrar que a florista vai à procura de Higgins na tentativa impetuosa de contratá-lo como professor, ignorante do alto valor dos honorários e, não apenas por isto, mas movida principalmente pelo desejo de mudança, de ascensão, mesmo mínima, na escala social. Por isso mesmo, no fim, Eliza é uma mulher de fino traço e que, ademais, mantém uma visão de mundo autossuficiente, superior ao da mulher dependente que foi obrigada a interpretar. E que Higgins, além de tudo, não estaria pronto a aceitar, porque ele mesmo, em primeiro lugar, não se acreditava alinhado ao cotidiano burguês – que referendava a estabilidade emocional mediante um relacionamento monogâmico – e, em segundo, custava a admitir o suposto apaixonamento por uma mulher com a origem como a de sua pupila, a representante da incipiente dinâmica social característica do Modernismo. Embora Higgins demonstrasse certa atração intelectual pela situação criada, o desapego à tradição elitista era ainda algo de difícil digestão.

É neste cenário dúbio, de uma Inglaterra cindida entre a monarquia e o capitalismo, que Shaw escolhe representar o drama da nova mulher. Um drama dissimulado pela linguagem tragicômica e simbolista que lhe era muito peculiar, tomado pela ânsia realista em mostrar o mundo em formas nada apaziguantes, mas não tão repulsivas que se tornassem indigestas. Toda a complexidade do tema destrinchado em Pygmalion confirma a proposta de uma obra rara, como rara também foi a personalidade de seu autor.

(Rogerio Brugnera)

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