um desejo inesgotável de ouvir (e contar) histórias

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Ursula K. Le Guin, numa introdução à edição norte-americana da Antologia da literatura fantástica (de Borges, Bioy e Ocampo), escreveu que As cidades invisíveis, de Italo Calvino, compunham um mapa mais interessante para a orientação de alguém no mundo da década de 1980 do que qualquer guia turístico Michelin, uma vez que as coisas tinham ficado tão estranhas. Walter Benjamin, num texto curto, discorre sobre a  adequação quase perfeita dos romances policiais à viagem de trem, ao universo das estações e estradas de ferro. Algo de ambas as situações pode ser relacionado a este volume, em que alguns dos contos são imaginações impregnadas de certa sensibilidade urbana, que na sua estranheza dizem sobre experiências comuns (e tenho a impressão de que o livro não destoaria pousado sobre uma mesa num boteco de esquina). Algumas ficções aqui não são urbanas, mas parecem responder a uma sensibilidade semelhante quando combinam gêneros narrativos, inscrevem argumentos mais ou menos conhecidos num registro inusitado e quando são maravilhosamente excêntricas. Ao mesmo tempo, há espaço para mais e não se abre mão do relato lapidado, da busca por um efeito surpreendente ou anedota eficaz, atendendo ao que Bioy diz ser um desejo inesgotável de ouvir (e contar) histórias.

(Texto de Raione Pedrosa)

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