Santo de vinil

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Oh vida de gala

– que luto nos veste

se nada nos iguala?

Cecília Bossi

“Vai lá o Doca…”.

Preto firme, brusco, um santo. Do gosto bêbado do prazer pela pinga, estará logo-logo refugiado da vida na sua carneira de baianões. O reboco saliente branco e sujo, a portinha atijolada com cimento e sol, a inquietante poeira rubra duma cidade às cinzas. É o silêncio de quem vai com saudade de mulher e cachaça, de futebol, truco e vômito… de dor nos cornos e rebate incerto na segunda-feira desferiada. O gesto é um adeus calado por lágrima. Meio-pau aos paus. O gosto, um soluço.

Falou-me o Cândido, coveiro, que não gosta de sepultar na terra. Acha falta de jeito e respeito. Enquanto ele media ao intuitivo o tamanho dos baianos pro buraco da gaveta, lembrava os tumbos que jaziam o resto da família do Doca. “Tôdus já morrêru já, só fartava só êle i só”. Falou-me que a tia, por causa dos remédios da tosse e dos cagos, era perfeitinha ainda. A negra parecia uma boneca de borracha – de vinil, conforme entendi – e não se dobrava ao regaço dos anos de sepulto. Se a mentira pode ser desculpada pela riqueza do argumento, ou pela criação ornada do conto, punham nela mais de dez anos embotada no casmurro do mármore: “Êta! nêga dura”. Tudo quanto o susto dava era medo e conto. Pau-velho.

Mas o Doca também era de remédio, do bom e do ruim. Reclamava à potência do membro dormente quando, afetado pelos vasos-dilatadores, negava fogo às saias do rala-rala. Aos peitos soltos daquele mulheril todo bastavam mãos iniciadas, perdidas. Só que pro racho e pro nó-do-gomes dizia, repetindo mil, “o bom mesmo é meter o tição”. Era a boca suja do santo preto.

Suave arlequim, às vezes desprezava o suspeito paraquedista – “no melhor da festa, baixa” – e encetava a graça das miúdas esfregas das biscas morenas do forró. Popularizou entre nós o lema: enquanto tiver língua e dedo, mulher nenhuma me mete medo! Ria de graça, se matava de tanto, e com o troco comprava mais riso. “Não tem pau-feito, mas tem pau-queimado”.

Cada piada valia uma pinga e quem era de perto ria e punha a marva. Trapaiado ou não, falava mais meio já com quase sono, caía no chão, fazia mijar de rir o delegado. O prefeito, também lá rindo, dizia não querer eleitor preto nem alcoólatra. Pau-de-amarrar-égua, pau-de-merda, pau-sujo, pau-dágua. Piada contada de diverso sempre do mesmo jeito, na queda do santo. E punha outra, de proveito, deixando cair de cima a branca tira ardente, fazendo-a bater sonora na boca aberta do preto Doca, que ria inconsciente. Ele: deitado no vermelhão do piso frio, pobre, feio, esquecidamente doente. Pau-mole.

Difícil carregá-lo, o Doca. Sem movimentos naturais, sem a consciência mesmo-que-bêbada-mas-ciente, pesava os oitenta quilos de uma tonelada grave. Pesava a tontura, a baba, o nojo, a graça humilhada e mastigada, a vida feita aberta e abominável pela populaça triste, restrita e fingida. Pesava ainda o delegado, o prefeito, o juiz, o produtor, o farmacêutico, o empacotador, o desocupado, o pau-torto, o pau-mandado, o pau-duro, o pau-vinhático, o paupérrimo… pesava nele todos os cinco mil daquela cidade papa-janta cravada nonada e, ainda assim, de massa, de existência maculada pela invenção do meio-termo e da virtude, fingida enquanto trabalhadora e auto-sustentável, mas ridícula enquanto sustentada pelo risível e humilhante devaneio cômico dum palhaço preto pobre, comido pela doença, casco do inferno queimado no sol da falsa potência alheia. Deitamo-lo meio que jogado à cama. Dormiu. Acordou morto, pau-de-formiga.

O Doca foi enterrado no dia internacional da mulher. Foi como se tivesse trepado pela última vez, como se tragasse o último cigarro que fatalmente o expelisse sobriamente morto. Morte pode ser uma palavra chula porque imputa medo onde deveria haver posse. Há quem acredite possuir a vida, que domine seus meandros, nuancias, reflexos, explosões. Há quem acredite que a vida seja um padrão como outro qualquer, um no qual o cálculo dos ângulos gerará um produto perfeito e constante. Há quem estabeleça câmaras mortuárias onde deverá deitar o corpo calado, onde a palavra seja somente memória, onde a memória seja esquecida. Mas há os que fazem o mesmo sem jamais calcularem com números, sem jamais terem visto ao menos uma vez as parciais de uma régua, de uma fórmula. Há os que ainda contam as carneiras uma a uma, separando cada qual em um signo muito específico que as afirmará, que as dirá ilesas da propriedade de vala e realizadas no detalhe. Há os filósofos de baixo-calão, aqueles que conhecem o esteio, a história do esteio, sua tradição, a prática necessária para alinhá-lo ao animal e o quê farão com ambos no arado. Mas se perguntarem a eles se o instrumento servirá com adaptações a outra função, nada responderão, porque além de tudo sabem que todo conhecimento é simples e específico e de nada servirá o antigo instrumento quando a técnica mudar seu mecanismo. Só a cabeça do homem serve. Uma tumba como outras tumbas é uma verdade incontestável aos vivos; uma tumba é uma tumba entre outras tumbas, cada qual com sua preservada intimidade: isto só o sabem o coveiro, que a realiza, e o morto, seu detalhe.

As avenidas vazias, o enterro vazio… poucos amigos. De velas nobres em sua ordinária função… o choro malogrado pela aspereza duma expectativa rival da esperança denunciou a comodidade da contemplação mortuária. Resignação é o nome da anti-revolução.

Eu estive ali, pau-rodado, pau-à-toa: uma vela debaixo do sol doloroso do oito-de-março, esperando que fechasse o tumbo do homem sem letras; o homem deitado agora-agora ao permanente numa carneira sem mármore que o dissesse vivo antes. Sem nome em nove-de-março.

Cândido falou-me da tia do homem. Eu pensei, pesado como o tampo da cova sobre o tempo, que o remédio daquela carne esquecida era ainda vivo nele. Se os anos, na soma de dez, o fizerem esperar a pôr mais um susto na virtude dos homens-de-nome e de-letras, o tributo e a memória estarão salvos em um santo de corpo preservado. Pau-ôco.

Esperei que se encerrasse o derradeiro botão de luz naquela câmara e, de canho riso, passei o portão de volta aos vivos. Pau-de-bandeira, o Cândido ficou.

(Conto de Rogerio Brugnera)

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