09 trechos d’A Penúltima Edição’

 

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“— Bofavor! – gritou Maximus Siena.

Levou socos na nuca, nas costas. O nariz despedaçando-se feito casquinha de sorvete. O impacto das pancadas fez com que caísse de cara no vaso. O jovem pressionou sua cabeça na água e apertou a descarga.

Uma cachoeira afogando-o. Não conseguiu lutar.”

Trecho de “Um Artista ao Cair da Tarde”, conto de Lucas Formaglio.

“Foi o primeiro defunto da minha vida. A avó debruçada na cama miserável de madeira. Mil e um suspiros no consórcio de presuntos. Mandaram flores pobres, mancharam as paredes e o esquife. Banalizaram a mortalha. A vovó de boca semi-aberta, a pele mais escura do que o habitual. Uma pequena janela de vidro no caixão, na frente do rosto. Lágrimas correm o vidro e choro novamente como criança. A sensação me leva a sumir do ambiente, sento na calçada como um moleque de rua, acendo um cigarro, fujo do abraço de tias sentimentais. A avó manca formiga-me o corpo. Enfia um aspirador de pó no meu peito, suga até que eu pare de respirar. Me bronqueia, me odeia. Trinta e sete anos de trabalho e miséria numa fábrica de tecidos. Milhões de microfibras por dia no sistema pulmonar. Fibrose, morte, tédio, secreções. Antes de ir embora, me lembra que sou um desgraçado. Comecei a fumar enquanto morava na casa dela.”

Trecho de “Recordações Desvairadas de Três Funerais”, conto de Fernando A.

“Arrastando os extraterrestres, os homens andaram por alguns quilômetros até alcançarem uma cabana de lona. Penduraram os dois corpos num varal de arame e sentaram exaustos no chão. Jocelim, debilitado, adormeceu. Os três permaneceram vigilantes pelo restante da madrugada.”

Trecho de “Alimento”, conto de Sérgio Ferrari.

“Ela me levou até um vidro de uns dois metros. Aquilo foi sem dúvida a coisa mais estranha que vi nesses meus 49 anos. A carcaça, os restos mortais de um sujeito vestindo uma toga preta. O crânio ainda tinha vestígios de cabelos brancos, simplesmente nojento.

— Esse é meu bisavô, o juiz Domenico Panche.

— Oh, que interessante.

Saímos do quarto, ela fechou a porta e, antes de descermos a escada, eu lhe disse:

— Agora eu quero lhe mostrar um segredo.

— Oh, e o que seria?

Nesse instante, abri meu zíper e mostrei…”

Trecho do conto “Chicken”, do  Lucas Formaglio.

“— Eu levei um martelo escondido pro colégio – continuou. — E quando o imbecil estava distraído, acertei uma martelada na sua cabeça, e ele caiu na hora, gritando de dor. E você pensa que nessa hora eu saí correndo? Não, não mesmo. Quando ele estava no chão, eu continuei a bater. E bati muito. Nas pernas, nos braços, no corpo. Ele ficou todo quebrado. Toda a valentia daquele saco de bosta havia sumido. No fundo, ela não era tão grande assim.”

Trecho do conto “Meu Querido Pai”, do Pedro Luna.

“Foi lá no Vlag que eu conheci o Itamar. Ele morreu há três meses, de muito tempo e muita pinga. O Itamar era meio figurão, meio maestro. Não sei, ele lembrava esses caras dos anos 50… Talvez o Nelson Gonçalves. Ele falava com um tom apoteótico, assim, meio filósofo de bordel. Era um boa praça, na verdade. Ele arrumava a gravata borboleta que usava, passava a mão no bigode fino e falava assim, meio alto, mas com classe: ‘Estar aqui é pecar e confessar ao mesmo tempo. Todo mundo gosta de uma boa sujeira, cada um a seu modo’.”

Trecho de “Vlag Hotel”, conto de Rodrigues.

Tal é o transtorno que passa na cabeça do homem…

Não me aborreça com citações de livros, agora.

Isso é uma citação de livro?

É. Você não conhece?

Devo ter lido antes em algum lugar, né, sem querer. De quem é?

Philip Roth.

Quem?

É do Philip Roth, um escritor americano, judeu. Ele usava muito a psicanálise nos romances dele, por isso pensei que você conhecesse.

Não gosto de psicanálise.

Trecho do conto “Intervalo”, do Rogério Brugnera.

“― Sim. A própria. Mas é claro que eu não vou comer uma poltrona. E esse é o meu fim, doutor. Como tudo que vejo me desperta fome, mas não posso comer tudo o que vejo, desconto na comida. E como a comida apenas substitui o que realmente quero comer, nunca me sinto satisfeito. Percebe a armadilha em que me prendi? Morrerei de comer por querer comer de tudo. Na verdade, seria melhor se eu fosse cego. Assim, pararia de sentir fome por tudo que vejo no mundo.”

Trecho do conto “Fome Inerente”, do Pedro Luna.

“Um burburinho crescente flutuou até o ouvido do atarefado Ferreira de Tarso, que em sua cozinha pilhada de pratos e carnes, temperos e cereais, esforçadamente conseguia manter a pronta entrega de pratos fumegantes aos seus clientes. Bastou a voz rouca de Olavo Mariano acertar-lhe a aurícula, para o mestre cuca largar meia pata de cabrito na pedra de corte e adentrar o salão obscuro da taberna.”

Trecho do conto “Fios de Macarrão”, do Sérgio Ferrari.

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