O segredo da pantera

pantera

Tomo o metrô. Em instantes, estou na Paulista, próximo da Rua Augusta, lugar de ostentação e ruas planejadas. De noitinha, está fervilhando de jovens. Ambulantes vendem bebidas, incenso, artesanato hippie. Hare krishnas cantando, distribuindo panfletos. Descolados, mendigos cults vendem poesia. São Francisco no final dos anos sessenta… Devia ter sido assim.

Desço a Augusta sozinho. Em meio àquela multidão, uma mulher gritando bêbada. Teria sido abandonada? As amigas não lhe suportaram? Quem se importa? Ela está lá. Conversa lasciva com pessoas que nunca viu; como se fosse comum. Garotos passam rindo, olhando aqueles peitos. Rostinho pálido, cabelo ruivo, franja… Que vontade de levá-la pra casa, transar e depois despachá-la como se fosse comida chinesa que chegou por engano.

Paro num bar, sento-me à mesa da calçada, observo. Aquilo está me prendendo, tornou-se um espetáculo: teatro ao ar livre. Ela puxa um garoto pelo colarinho. Imagino o toque na camisa de flanela. Olha nos olhos, não dá pra ouvir, o rapaz vira-se e continua andando. Os amigos fazem gracejos. Um potro fugindo de uma fêmea no cio, rapazote? Imagino como o garoto sente-se agora, arrependimento. Que bom que estou na posição confortável de espectador!

Ela começa a gritar coisas. Nina Hagen cantando no palco. Um sujeito careca, de óculos escuros e mal encarado, passa. Ela mexe; mão no cabelo, diz algo. Ele está paralisado, olhando, sem dizer palavra. Que tipo de sujeito usa óculos escuros à noite? Está calado e acompanhado por amigos. Um deles é magrelo, camiseta de banda nova, o outro, um loiro de bigode. Olham a moça. Olhar do Pica-Pau quando vê um frango sendo assado num braseiro.

O careca pega-a pela cintura, beija-a. Agora está subindo a rua com ela e seus amigos, que estampam sorrisos. Ele não. Parece um androide. Frio. Sobem na direção do carro. O loiro dirige, o magrelo fica no banco de passageiro, o robô careca vai atrás, com a ruiva. Ela passa as mãos no peito dele, brinca com os dedos e as unhas pintadas. Ele vai beijá-la, as línguas lutando. Logo chegarão ao destino.

Chegam ao apartamento do loiro, provavelmente um novo empreendedor que deu certo. No sofá, o careca arrebenta os botões da camisa da mulher. Parece ter peitos pequenos. Os amigos estão excitados, seus membros vão explodir nas cuecas bem lavadas. Estão tomando alguma bebida e observando. O androide tira a calça dela, que fica brincando com os pés. As unhas vermelhas atiçam os três. O careca mete as mãos no fecho do sutiã…

– Ah, gatinho… Ainda não – ela diz.

Ele parece não escutar. Ela está séria, agora. O sutiã cai, mas não há seios, só um peito liso. Os amigos não parecem excitados. O loiro deixa a garrafa de cerveja perto da imagem do Buda e caminha até o androide careca.

– Ei! Acho que você pegou gato por lebre – diz.

O careca levanta-se, tira os óculos, fita-o.

– Ah! Mas, hoje em dia isso é tão comum, né? – diz o loiro.

– Sim, comum. Você quer trepar com ele? – responde o androide.

– Ah, cara. Eu não sou disso, não.

– Você pode não ser, mas você vai! Loirinho…

Pega o amigo pelo colarinho, atira-o em cima da sem-peitos. Ele não sabe o que fazer, começa a beijá-la de maneira automática, tomado por medo, cumprindo a obrigação. O robô careca ordena:

– Vai! Tira as calças dela!

Ali está um pau duro e depilado, quem diria. O careca vai pra cozinha, pega uma cerveja, puxa uma cadeira, fica assistindo. Observa-o chupando. Os olhos da ruiva estão fechados, a boca semi-aberta, dentes brancos e gemidos.

No bar, estou tomando o segundo Scoth com gelo. Meus joelhos doem. Devo estar ficando velho.

Conto de Lucas Formaglio

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