Báfulas de Escropo – O pombo e o coelho

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O coelhinho vivia no alto dos Jardins. Por baixo do pelo alvo, desenhava-se a cútis rosada, as patas, nariz e o rabinho arredondado. Tinha ele muitas coelhinhas, cenouras, nada nunca lhe faltava. Pulava de moita em moita, as patinhas encolhidas à frente do corpo. Foi quando encontrou o pombo.

– Há quanto tempo, pombo! – disse o coelho.

– O acaso só existe para quem nele crê, jovem – respondeu o pássaro.

O pombo ciscou, catou um grão e prensou na ponta do bico, engoliu. O coelho ia dando leves pulos ao seu lado enquanto desciam o monte dos Jardins.

– Essas sementes dos Jardins são inigualáveis – disse o pombo.

– Oh, sábio pombo… Você é que é feliz – disse o coelho.

– A felicidade depende de como encaramos a vida.

– Sem essa! Você é feliz, vive por aí sem ter que dar satisfações, de um canto pra outro.

– Percebo que busca justificar-se com suas constatações. Tenta me dizer algo?

– Puxa, eu estou tão infeliz, pombo! Minha vida é um tédio… Tédio!

O pombo pediu que o coelho abaixasse-se um pouco, perto da grama molhada. O dentuço achou aquilo estranho, mas fez de bom grado.

– Assim está bom? – disse o coelho.

– Mais um pouquinho, pra esquerda. Isso, aí mesmo, meu jovem…

As orelhas foram pra perto de uma poça de lama. O pombo prensou o pescoço do coelho com o bico e afundou sua cara na terra. Para aquele bico que já tinha triturado muita casca dura, madeira, plástico e até pedra, não foi muito difícil manter o coelho mergulhado.

O dentuço bateu as patas no chão, tentando sair. O dorso ondulava igual cobra, bolhas de ar estouravam na superfície argilosa. Seu grito, embaixo da lama, lembrava um urso faminto. Então o pombo içou sua cabeça, que agora parecia um xaxim de samambaia. Deixou que respirasse.

– Sente-se melhor, agora?

– Para com isso, cafalho!

– Essa não é a melhor resposta para quem lhe auxilia sem nada cobrar.

E afundou a cabeça do orelhudo novamente na poça.

Depois de se debater por alguns minutos, o coelho começou a regurgitar e engolir o barro pela boca e nariz. O bicho fez tanta força que acabou se cagando inteiro. Uma listra marrom desceu pelo pompom do rabo clarinho. Isso pareceu constranger um pouco o pássaro, que liberou a cabeça do amigo de novo.

– FEU DEGLAFADO! MMME FOLTA, ME FOLFA!

– Soltarei o coelho com um porém. A criatura ainda acha sua vida ruim?

– É! ÉÉÉÉ FUDO UMA FOSSTAA!

Soltou a cabeça do coelho com o bico e, agora, usando a pata, pisou em seu crânio. Afundou-o ainda mais na poça. O bicho já nem se mexia mais, e as bolhas pararam de subir. O pombo puxou sua cabeça pra fora da poça de novo. O dentuço urrou.

– GLUUUUSSSFFFGAAAAAAAARRR!

– Coelho bem nascido, jovem saltador de moitas mornas, ainda acha tediosa a sua vida de tantas cenouras e coelhinhas?

– FÃO! FÃO! MINHA FIDA É MAFAFILHOSA! FOU FEFIZ! FEFIZZZ!

Satisfeito com a resposta, o pombo chutou o coelho morro abaixo. Depois de várias cambotas, o peludo estirou-se na beira do lago. A ave caminhou e sugou água, fazendo o bico de caneca. Espirrou na cara do orelhudo, que vomitou em vários jatos. Gêiseres de terra, fluídos e cenoura.

O coelho esfregava os olhos, liberando a visão. A placa marrom desceu pelo rosto, e a primeira coisa que ele reconheceu foi uma nuvem, tinha o formato de um grande sorriso. Depois viu o pombo – sério e de braços cruzados a sua frente – então a grama, o lago, o horizonte… O ar vinha fresco pelos pulmões. Suspirou.

– Sente-se melhor? – disse o pombo.

– ARRRGHH!

– Não compreendo tal expressão, amigo coelho.

– GOOSSSFF! Que sujeira! Quanta humilhação!

– Não fuja de si mesmo, espírito mediano.

– Estou fugindo é de você, seu psicopata do caralho! ADEUS!

O coelho saiu pulando, pingando barro pelas moitas.

O pombo caminhou devagar, as patas marcando a grama, olhos de sábio. Então ficou a apreciar sua imagem na poça. Depois de observar seu reflexo por cerca de uma hora, desceu o bico e degustou a lama. Estava com temperinho de cenoura.

Moral da história

Às vezes, a gente precisa que um doido esfregue a nossa cara na bosta – mostrando-nos o que não conseguíamos enxergar – para que então valorizemos o banal e o esquecido.

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