Paraísos perdidos – impressões sobre botecos ristorantis do centrão SP

O apelido do restaurante era Tufo’s. Tufo’s porque a comida tinha fios de cabelo. O Fuad fazia questão de comer ali. Ele gostava de sentar à mesa em frente ao banheiro. Pelo que dizia, ficava excitado com o movimento de senhoras entrando e saindo do sanitário e com o cheiro de produtos de limpeza e pele suada que aqueles cubículos exalavam. Toda vez que a porta abria e fechava, ele dava uma fungada no ar e fazia uma cara de safado, “se eu entro ali, sai até faísca”.

O boteco que servia almoço bem barato era o Deeds. O apelido era por causa do filme “A Herança de Mr. Deeds”. No filme, o Adam Sandler tem o pé preto. Quando entramos lá pela primeira vez, notamos que o balconista usava um tênis branco – desses de metaleiro – mas que na verdade era preto. Preto de tão encardido. E toda semana voltávamos lá, e lá estava aquela criatura com o mesmo tênis preto que fazia barulho enquanto ele caminhava pelo piso engordurado do bar. “Saindo uma sopa!”.

mrdeeds

O bar do Psíco era porque o caixa tinha os olhos vermelhos e estava sempre com uns tiques nervosos. Parecia que tinha acabado de sair do inferno. Sua maior habilidade era com o troco. Ele sempre previa a quantidade de dinheiro que iria receber e dava o troco num sem pulo, sem contar nem nada, tacava um monte de moedas e notas no balcão antes mesmo de pegar a sua grana. Então tremia o queixo e olhava para a esquerda e para a direita, girando as bolinhas pretas dos olhos no fundo rosa. O troco era sempre exato. A impressão que tínhamos é de que ele estava preso naquele caixa há vários anos. O cabelo e o rosto sempre ensebados, a blusa aberta exibindo os pelos do peito. Era como um bicho capturado pelo capeta que, como pena, fora colocado para sempre a atender no vidro daquele caixa. Por ser do inferno, adivinhava quanto tinha que dar de troco.

No Tufo’s tinha uma garçonete grandona. Ela ficava passeando entre as mesas, perguntando de um jeito irritado se queríamos Soda. Ela não usava a palavra refrigerante ou suco, para ela, tudo era Soda. “Quer Soda?”. Caso o cliente não pedisse a tal Soda logo que entrasse e sentasse, resolvendo pedir a Soda depois, a garçonete soltava um “não disse que não queria?!”. Então limpava as mãos no avental sujo e trazia a latinha, batendo-a gentilmente na madeira da mesa. Alguns de nossos colegas sentiam certa atração pela garçonete, por mais que a tivéssemos apelidado de Chinaski, em homenagem ao alter-ego de Charles Bukowski. Na hora do pagamento, havia um Chinês – que era o caixa e dono do restaurante e – ao contrário do Psíco, demorava demais para nos dar o troco. Então a Chinaski gritava para o Chinês, “tá cego, ô, Chinês?! Abre o olho, China!”. Logo ficou desempregada, e um de nossos amigos teve um caso com ela.

tufos

No Deeds o banheiro não tinha teto. Apesar de – em certo período – vender a cerveja mais barata da região, os mictórios ficavam ao luar e nós gostávamos de mijar sentindo os pingos d’água na cabeça. Era como mijar em looping. Um de nossos amigos costumava ter experiências digestivas completas por lá. Após comer um dos salgados do lugar, bebia algumas cervejas e sentia seu estômago em reviravoltas, então caminhava pelo corredor lateral – bem apertado – e pedia a chave do banheiro, que costumava ficar amarrada em um cabo de madeira sujo. Depois da experiência – na qual dizia se sentir na latrina do sítio de seu avô, soltando barro e olhando as estrelas – retornava para a nossa mesa com um sorriso no rosto e pedia mais um enroladinho.

O Unha trabalhava no bar do Psíco. Um balconista pode ter qualquer tipo de apelido, menos Unha. Os salgados ficavam amontoados atrás da estufa com vidro quente. Ao receber um pedido, o funcionário teimava em esconder – mas sua unha enorme, grossa, cinza e pontuda reluzia entre os quitutes como uma pedra rara e pré-histórica. O Fuad, certa vez, disse que – enfezado com os olhares tortos – o homem não se fez de rogado, abdicou dos guardanapos e espetou uma coxinha com a ponta da unha, levando-a ao pratinho metálico do cliente. Um serviço que não se encontra em qualquer lugar.

psico

No Tufo’s tinha um elevador improvisado que levava a comida do refeitório para a cozinha, no andar de cima. O problema é que – pelo mesmo sistema – eles desciam e subiam tanto a louça suja como a comida. Aliás, tudo passava por ali. Certa vez, após a subida de uma pilha de panelas ensaboadas – escorrendo espuma pelos lados – veio descendo uma panela de feijão. Estávamos na fila esperando – eu costumava comer feijão ali – meus amigos não. A Chinaski empunhou a panela, que transbordava pelos lados – braços flácidos com restos de músculos e veias verdes – e virou de uma vez só o feijão no recipiente onde nos servíamos. Como lavagem. O caldo respingou pelos lados, temperando o brócolis com feijão, a batata com feijão, a banana frita com feijão, a polenta com feijão, a canja com feijão, o suco com feijão, e a gelatina com feijão. Enchi o meu prato sem parcimônia, afinal, como diria meu finado avô, “na barriga tudo se mistura”.

O Deeds parecia o bar dos mortos. Se durante o dia o bar era frequentado por trabalhadores querendo um almoço de quatro reais e cinquenta, além dos costumeiros aposentados chupadores de sopa, à noite parecia que uma fenda abria-se e logo estavam ali – sentados no balcão com um copo americano e uma ampola – fantasmas de várias épocas. Um deles era um senhor de terno e chapéu pretos que se embriagava sozinho num canto. Todos diziam que ele era a cara do Robert Johnson, bluseiro velho que vendeu a alma ao Diabo. A impressão que tínhamos era de que – a qualquer momento – o senhor empunharia um violão e começaria a entoar as velhas canções do Mississippi.

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