Scorpion, a questão do suicídio

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Um escorpião se mata quando colocado em um círculo de fogo? São muitas as respostas a respeito desta teoria. Certa vez, ouvi de um conhecido: “Eu estava no Egito com a minha mãe, alugamos uma Kombi com mais um grupo de turistas e levamos conosco um eunuco. Fomos até a região das pirâmides, no meio do deserto. O eunuco caçou um escorpião preto, dizendo que aquele era um dos mais perigosos. Então fez um círculo com álcool em gel ao redor do bichinho e meteu fogo. Depois de alguns minutos de desespero, o escorpião posicionou seu aguilhão em cima da cabeça e pimba! Tirou a própria vida. Parece até mentira, rapaz!”.

O escorpião costuma aguçar a imaginação do povo exatamente por estar inserido em meios rurais e urbanos, onde é encontrado em lugares escuros como fendas entre tijolos, buracos, no meio de entulhos e amontoados de madeira. Uma das fábulas interessantes a respeito desse animal chama-se “O Escorpião e o Sapo”. Nela, o escorpião pede ajuda ao sapo para atravessar o rio. O sapo demonstra apreensão em ser picado durante a viagem, mas o escorpião adverte que – caso faça isso – ambos morreriam afogados. No meio do curso, o escorpião não consegue suportar e acaba picando o sapo, alegando que aquela seria a sua natureza.

Na cultura popular sempre há um pouco de verdade. Por isso é necessário explicar as diferenças entre o científico e as fantasias do povo. Ao final dos anos 1990 recebi convite para participar de um programa de um canal de televisão de São Paulo. Tive que ir, embora preferisse passar mais tempo no laboratório identificando venenos de um novo espécime. O programa consistia em um tipo de gincana. Fomos colocados em uma equipe que vestia coletes verdes e tinha por objetivo somar mais pontos do que a equipe dos coletes dourados.

Chamaram ao centro do auditório uma equipe de engenheiros japoneses que dava pirapotes e gargalhava enquanto girava um caixote preto. Ao abrirem a caixa, revelaram um personagem de roupa amarela e preta, com gorro e máscara de caveira. Ele gingava de forma letárgica. O apresentador parecia tomado por um espírito zombeteiro, gritava e fazia passos de dança, revelando ser um grande populista. Foi então que nos indicaram a tarefa da gincana.

Queriam provar que o personagem – denominado na grafia inglesa como SCORPION – poderia ser levando a cometer suicídio quando colocado em um círculo de fogo. Meus protestos de nada valeram quanto à realização da experiência e, ciente de meu papel perante à ciência, fiz então uma “linguiça” comprida de algodão ao redor do guerreiro sombrio, embebendo-a em álcool. Tacamos fogo, e o tal SCORPION corria para lá e para cá. De repente, precipitou-se na direção das chamas e acabou tostado enquanto repetia algumas frases em inglês.

Não satisfeito, o grupo de engenheiros orientais fez surgir outro exemplar, com o qual ocorreu a mesma coisa. Em uma terceira tentativa, o tal SCORPION, em meio às chamas, crispou-se e deitou de lado em posição fetal. Depois levantou, parecia enfurecido, fez um movimento rápido e gritou – COME HERE! – assustando a todos. Arremessou um aguilhão entrelaçado a uma cordinha. O objeto correu e sumiu dentro das chamas, surgindo por mágica nas labaredas que estavam atrás do lutador, o que nos deixou confusos. “COME OVER HERE!”, gritava ele. A arma, que parecia teleguiada, desviou das costas do personagem, indo pelo meio de suas pernas. Foi então que acertou em cheio a coxa de um dos programadores japoneses. Emocionado e gritando muito, ele foi levado do palco, deixando uma listra de sangue no chão e dando picos de audiência ao programa.

Um rapaz da produção apagou as chamas. Raivoso, um dos orientais acertou o guerreiro por trás com forte paulada. Aproximei-me do ser desmaiado e, junto da equipe, fiz um experimento para provar o que eu já havia alertado sobre aquela palhaçada. Solicitei aos auxiliares que segurassem o guerreiro, imobilizando-o, pois não sou de brincar com coisas além do entendimento. Peguei o aguilhão e o desprendi da cordinha. Agachei perto do personagem tirei seu gorro. Para minha surpresa, ele não vestia uma máscara de caveira. Ele era realmente uma caveira. Tentei perfurar a caixa craniana, sem sucesso, o material era duro. Insatisfeito, retirei o veneno do aguilhão e coloquei em um tubo de ensaio, fazendo com que ele, fora de consciência, ingerisse o líquido completamente. Depois de alguns minutos, conferi seus batimentos cardíacos, estavam normais. Assim, comprovei minha tese. Tanto o escorpião quanto o SCORPION não se matam.

Enquanto íamos embora, o programador acertado em cheio pelo aguilhão estava fazendo aquela dança letárgica nos bastidores. Corpo mole, gingando para frente e para trás. Nos apressamos em sair dali quando alguém com voz monstruosa gritou: “FINISH HIM“.

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