O nascimento dos duendes vinhedenses

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No final do século XX, um grupo de pesquisadores do município de Vinhedo – interior de São Paulo – descobriu uma série de pequenas estruturas ósseas enterradas embaixo do Portal, um arco que enfeita a entrada da cidade e dá as boas-vindas a quem chega. Após análises, as ossadas foram imediatamente associadas à questão dos duendes vinhedenses. Estas criaturas habitavam há muito tempo este pequeno condado e ninguém sabe de onde vieram.

Aliás, não sabe muito sobre os duendes de Vinhedo, pois eram criaturas solitárias e ferozes e antissociais. Na cidadezinha, existiam cerca de 10 mil espécimes, dos quais restam somente 30 ou 40. Eles acabaram escondendo-se do desenvolvimento que atingiu a cidade no século XXI.

Os relatos são bastante parecidos. O cidadão, geralmente, ao abrir a porta de casa, deparava-se com um “bicho desses” (como eram tratados pelos vinhedenses) que estava atarracado, resmungando e dando soquinhos no ar. Então o habitante da cidade dava-lhe um chute, de maneira que o duende voava para longe. Porém, a criatura não se fazia de rogada, voltava rápido e ia buscar o pé de quem a machucara. Não eram raras as filas de pessoas com o pé mordido, arranhado, esmagado ou furado, na Santa Casa da cidade.

Em livros de biologia que encontrei na Sant’Anna International School, antiga escola de Vinhedo, segue como verdade que os duendes teriam o mesmo método de reprodução visto em outros animais pequenos. Em uma destas publicações, pude ler algo como “ora, como eram feitos os novos duendezinhos? Não há segredo, surgiam primeiro na forma de larvas, até se desenvolverem, assim como os insetos”. B. TORNER, na Enciclopédia das Espécies, afirmou que “o macho encosta a cabeça na testa da fêmea e, friccionando barriga contra barriga, os seres passam de um para outro a semente genética através de uma dança circular”. “A dança dos duendes” foi encenada na série de filmes coloridos “True-Life Adventures”, da Disney, e os produtores não notaram o que de fato estavam mostrando.

A teoria de B. TORNER pareceu-me a mais concreta. A problemática de sua tese foi nunca ter conseguido demonstrá-la, porém, os nativos de Vinhedo sabem que, após a tal dança circular dos duendes, fêmeas surgiam com filhotes nas costas. Optei pela montagem do acampamento próximo à região onde fica o “Cristo”, que na verdade é uma estátua em miniatura homenageando o Cristo Redentor carioca. Neste local a mata é bastante fechada e, durante a noite, relatos de cidadãos indicam maior incidência dos duendes que resistiram. Solicitei que o Instituto enviasse-me com rapidez binóculos de visão noturna, para que minha observação tornasse-se mais íntima e objetiva.

Na primeira noite, nada se passou. Assim, eu e uns nativos passamos a jogar gamão e fumar charros. Na segunda noite, o mesmo. A surpresa me ocorreu na terceira, quando, após preparar o material de observação, avistei um casal de duendes vinhedenses embrenhando-se mata adentro. Os dois dispunham de grande vontade para encontrar local propício, ou seja, grama plana, livre de galhos, formigueiros ou qualquer coisa que pudesse estorvar “a dança”. Enquanto não localizavam, a fêmea retirava algo do bolso e enfiava na boca do macho, alimentando-o. Com ajuda do binóculo, pude enxergar com clareza, eram jabuticabas bem pretinhas, das quais ela tirava o suco e esfregava com o dedo na boca do companheiro.

Em certo ponto a dupla de duendezinhos parou. Deram as mãos, um de frente para o outro, aproximaram-se, friccionaram as barrigas e começaram a caminhar cerca de cinco metros para frente, cinco metros para trás (TORNER tinha razão, mas, eu, pelo menos naquele momento, achava que tinha a prova). E por que as criaturas realizam tal prática? A cada conjunto de movimentos deste gênero, passam a recolher impurezas do solo e – de alguma forma mágica – fazem com que desapareçam até que a área fique plana e limpa.

Então os duendes vinhedenses começaram a girar circularmente e de forma bastante veloz. A cada giro, o gramado ia desgastando-se. A partir da segunda etapa do ato – a mesma que TORNER jamais conseguiu acompanhar – acionei a modalidade de gravação dos binóculos do Instituto: os duendes desgastaram o solo até que seus corpos afundaram, restando somente as duas cabecinhas acima da terra. Após alguns momentos, ocorreu vibração intensa no terreno, como um mini-terremoto, aliado a barulhos extravagantes e agudos. Depois de cerca de 30 minutos, a fêmea emergiu da terra, sendo que o macho se afundou completamente. Ela sumiu em meio à densa vegetação e eu, assim como TORNER, fiquei a ver navios.

Comprovei, então, a tese de que não se sabe como surgem os duendes vinhedenses porque eles – com sua natureza irascível – reproduzem-se embaixo da terra. E até agora ninguém conseguiu meter o bedelho.

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