Adriano Loba

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a transcrição destes depoimentos colhidos dos moradores do sul de Minas Gerais tenta manter a característica oral e informal, embora tenha sofrido correções conforme a concordância gramatical, todas necessárias à compreensão total do conteúdo deste documento. a transcrição original e sem correções perdeu-se após um grave acidente automobilístico.

-arquivo sonoro nº 042-
entrevista / depoimento
Antônio Severino dos Santos Palmério, 92 anos, aposentado (Monte Verde, MG)
-data do arquivo: 04.02.2002-
-data da transcrição: 29.04.2012-

 

olha, moço, deixa eu falar pro senhor, esse bicho não é coisa que deve ser visto. hoje em dia tudo se mistura no meio desse mato pra dentro. as coisas não têm mais pé nem cabeça, ninguém mais sabe o que é do bem, o que é do mal. esse bicho que o senhor quer ver, com certeza já viu o senhor, pode acreditar ou não, isso não é do meu respeito. mas ele é das poucas coisas que, juro, são o que são sem se misturar com outra, é um animal que é gente, pensa que nem gente, mas fareja e ataca feito fera.

-arquivo sonoro nº 017-
entrevista / depoimento
Ana Carolina Marcondes de Jesus Aníbal, 65 anos, lavradora (Monte Santo de Minas, MG)
-data do arquivo: 01.12.2001-
-data da transcrição: 11.04.2012-

 

essas galinhas todas aí são as novas, o galinheiro é todinho novo, é reforçado com as chapas de madeira, porque o antigo foi para o chão, era só de tela quando a coisa veio, e ela veio de noite, madrugadinha, as bichinhas não tiveram a sorte. a coisa ruim vem de rastro e vai embora na mesma hora, mata tudo, chupa o sangue, carrega o que pode na boca, sangrando o sangue das coitadinhas. nenhuma escapou, eram doze, tudo botadeira. antes todo mundo conhecia alguém que tinha sido arrastado, morreu na boca da danada. eu falo danada porque é fera, e fera é mulher. todo mundo chama ela de Adriano porque era o nome dela quando tinha vida de menino, antes da desdição da mãe. mas pra mim ela é que nem onça, a gente não ouve ela.

-arquivo sonoro nº 006-
entrevista/depoimento
Antônia Cerquilho, 71 anos, curadeira (Bairro do Matão, sub-distrito de Alfenas, MG)
-data do arquivo: 15.11.2001-
-data da transcrição: 08.04.2012-

 

eu mesma nunca vi o bruto e nem quero. já curei mordida de tudo que é animal dessas terras e a pior coisa que já vi foi a boca do menino lobisomem na perna de um bendito cachorro de guarda que trouxeram pra eu sarar. e sarei, mas foi o diabo. Jesus é rei. mas a mordida era toda de boca de gente, em várias partes daquela perna de cão, mas uma que quase arrancou o pedaço do bichinho, deu pra perceber o tamanho do vara-capeta, da cabeça (faz um gesto com as mãos em concha, como se segurasse uma bola de futebol) dele. o danado é grande, não é mais criança, se existir. mas o cachorrinho viveu foi pra morrer logo depois, nem deu tempo de tirar as costuras. disseram que foi o próprio bicho menino que o pegou, porque se o que falam é a verdade, a ruindade é ciumenta e nervosa, não gosta que lhe tirem da boca o de comer, o que for, e o trevado é ruim que só ele mesmo.

-arquivo sonoro nº 002-
entrevista dirigida
Marco Aurélio Nogues Andrade Herscher, 80 anos, comandante reformado do Exército, farmacêutico (Poços de Caldas, MG)
-data do arquivo: 13.11.2001-
-data da transcrição: 07.04.2012-

 

sim, o Adriano Lobo, já ouvi falar muito a respeito. muita história, muita conversa. esse é o tal chupa-cabras brasileiro ou o E.T. de Varginha, se bem que não é mesmo a mesma coisa. o Adriano Lobo está no imaginário popular desde antes que eu nascesse. na minha infância ele era a figura que botava pavor para as crianças dormirem. quando aparecia alguma coisa estranha nas fazendas, no campo, um animal morto, ou muitos deles de uma só vez, era culpa do Adriano Lobo. existem relatos de pessoas atacadas por ele, e a descrição dele bate na maioria: um cão grande, por certo correlato em pala ao Bloodhound, aquele cachorro que tem cara triste. mas do feitio de um capa-preta, e a cabeça de gente. sim, a cabeça totalmente descoberta de pelos, toda perfeitinha como a de um humano, boca, orelhas, olhos, tudo, porém como se estivesse acoplada a um tronco indevido. sobre sua origem? quem pode contar isso melhor é meu amigo Messias, de Machado, cidade aqui mesmo do sul do Estado, mas não muito próxima. vá a ele. foi vereador duas ou três vezes, candidato à Prefeitura, derrotado. em suma, um benfeitor. eu mesmo posso telefonar antes dizendo que você irá.

-arquivo sonoro nº 005-
entrevista dirigida
Adolpho Messias Argue Heintl, 79 anos, advogado, político, exerceu edilato nas décadas de 1970-1980 (Machado de Minas, MG)
-data do arquivo: 14.11.2001-
-data da transcrição: 07.04.2012-

 

Adriano Lobo, como você já está informado, é uma espécie de criatura sobrenatural, uma esfinge perfeitamente brasiliana maturada aqui mesmo em terras de nossas Minas Gerais. o que dizer de um ser híbrido entre o humano e o cão, não um licantropo europeu, mas o diabo finalmente animalizado, destituído de sua forma divina para se corromper na mundanidade, aparecendo entre frestas de barracos, arbustos. estorietas mal contadas? o monstro teria nascido menino, sim, em uma família muito devota a Deus, nos interiores destas serras. só Ele (aponta o indicador da mão direita para cima, se benze, beija a ponta dos dedos) sabe exatamente onde. diz-se que era um casebre isolado. constituía-se a família de: um pai, uma mãe, que é a personagem talvez mais importante, e duas crianças pequenas, um casal, de idades emparelhadas. contam que, conforme as crianças cresciam, o menino, em especial, demonstrava uma índole muito agressiva, chegando mesmo às balizas da perversão e da maldade nua e crua. tudo aos olhos dos pais, cujas forças e conhecimentos seriam insuficientes na contenção daquela identidade infanta já tão cheia de pecados. a lista seria enorme: o garoto matava, primeiro, os animais pequenos do mato, o que poderia ser até considerado normal em alguma circunstância propícia, mas depois a escalada foi íngreme, pois passaram a sofrer e a morrer por suas mãos os animais da pequena propriedade, que eram tão caros e custosos ao sustento daquela família. eram galinhas, galos, bichos domésticos, desaparecidos por um tempo e surgidos misteriosamente atados a troncos de árvores, debaixo de pedras grandes, ou pontudas, empalados em cabos de enxada, as coisas mais apavorantes. não demoraram a ligar os casos ao menino, que ria de tudo e, quando se safava dos incontáveis castigos paternos, punha a se vangloriar da inumanidade, produzia rimas e cantorias com o espetáculo. acredito que tais tipos de personalidade perversa não possuem outro obstáculo que não sejam si mesmas. por isso, como o garoto, talvez já próximo da puberdade, ou quase, tivesse passado a investir suas vontades contra os animais maiores e caros, acabou resultando no desvario do pai. o rapazinho foi posto, acredito que obviamente contra a sua vontade e não imagino por quais meios, suspenso de cabeça para baixo por uma corda atada ao galho forte de uma árvore grande, ali passando a noite. teriam havido protestos da mãe e da irmã, mas nada dissimulou ou desencorajou a loucura paterna. daí entendesse que a fúria entre dois homens, sejam da mesma família ou não, é coisa que não se cura. o rapazinho procurou sua vingança contra o próprio pai, planejada por artimanha insólita: atraiu a vaca, única da casa, até um córrego, e lá quebrou suas patas. sem poder levantar-se, o animal não conseguiu salvar sua vida, afogando-se pela água, pela dor, desespero. o menino acorreu ao pai, dizendo falsamente que a vaca teria caído no córrego e ficado presa. indo à direção apontada, o pai dera-se conta do caso fatal, mas não teve tempo sequer de se virar contra o filho, que o golpearia com um facão na nuca. o pai atacado pelas costas pelo próprio fruto. conta-se que a maldade não teria parado, pois além do parricídio teria ainda se confirmado o esquartejamento do homem, e as partes colocadas dentro do bucho da vaca. alguns contam ainda que o rapaz comera partes de seu pai, inclusive o coração e o fígado, voltando para casa balançando o facão limpo nas rasas águas do córrego, porém dando os sinais da tragédia insana pelas manchas de sangue por todo o seu corpo e roupas. [trecho inaudível] imagine o moço, então, filha e mãe horrorizadas, sem saber o que fazer diante de todo o exposto. a mãe, tomada do horror, rogou ao filho a maldição que selou o destino do rapaz, que depois sumiu correndo pelos descampados da serra. a filha enlouqueceu, morrendo por definhamento meses depois. é o que contam. a maldição teria sido algo como “você viverá para sempre como viveu até agora, fazendo o mal por prazer, comendo a carne de indefesos, e ninguém poderá limpar o sangue que em você estiver marcado”. isto, claro, é uma interferência minha, mas me apraz que uma mulher aterrorizada comprima suas crenças mais fervorosas desse modo, sem nenhuma esperança. é a matéria de toda praga de mãe.

-arquivo sonoro nº 111-
depoimento do entrevistador
-data do arquivo:-
-data da transcrição:13.12.2012-

é algo estranho que me segue. não uma presença que se pode ver quando se vira para trás, é uma sensação de estar sendo puxado quando queremos seguir para frente. isso acontece em determinados momentos do dia. à noite, nada. nem sono. nada. só que escuto, acho, todos os barulhos da noite. não consigo escrever. as transcrições ainda não começaram, pois não encontrei ainda quem pudesse fazer isto, o trabalho tedioso. a pesquisa não anda mais. está tudo empacado. estou sitiado em Lavras por causa do mau tempo. cheguei aqui por causa da história, mas não encontrei relatos muito pertinentes, apenas o deslizamento de um assunto batido. da janela do hotel dá pra ver a estrada, a serra, o caminho até São João Del Rey. depois tenho que chegar até o Rio das Mortes, onde sei que há partes da história que ainda podem ser úteis. mas tenho que esperar passar o mau tempo, chovendo pra caralho. e também estou com medo. tem isso, a presença. caçado. pode ser que seja meu senso de responsabilidade gritando forte, não sei. também não consigo comer, só tomo líquido o dia todo. tremo toda hora. e agora que está tarde, tento dormir, mas não dá. acho que vou ter que sair debaixo do mau tempo, amanhã. a chuva deve continuar a semana inteira. estou perdendo muito tempo. preciso sair. é o que eu vou fazer, que se dane. amanhã cedo: estrada.

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