Cururus de Gaiola, a experiência hipnótica

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Poderiam os cururus de gaiola hipnotizar outras espécies? A curiosidade popular sempre atribuiu a estes pequenos animais a capacidade de magnetizar, entorpecer ou narcotizar com os olhos os seus inimigos naturais. Seriam criaturas sobrenaturais com poderes para além de nosso entendimento? Ora, não é o que afirma a comunidade científica.

Sem delongas, pode-se certificar (e para isso não é necessária nenhuma muleta da Ciência) que o cururu de gaiola tem cara de bobo. Mesmo com a falta de sagacidade em suas feições, o cidadão comum sabe que não deve confiar em um cururu, nem mesmo nos filhotes, os chamados cururuzinhos. Como se diz popularmente, “de bobo eles só têm a cara”.

O truque é antigo. As criaturas, ao depararem-se com um ser humano, se jogam de costas no chão e começam a exibir a barriga e as patinhas peludas, uma prática bastante utilizada pelos cães domésticos. Traídos pela ternura dos cururus, os indivíduos abaixam para dar carinho. Nessa hora, os bichos lascam mordidas duras com seus dentes arredondados e então expelem a saliva, que causa uma coceira intensa. Há relatos de pessoas que tiveram entre dois a três dedos decepados, um advogado coçou-se até ficar em carne viva. Mas, veremos a seguir que essas criaturas são menos interessantes do que imaginamos.

Quando SIMON, um sábio suíço, desembarcou no Brasil, optou por estabelecer moradia em São Paulo, no Lauzane Paulista, bairro homônimo a uma cidade de sua terra. Encantado com a fauna do lugar, SIMON colocou-se a categorizar as espécies que encontrava, criando seu “Sistema Natural”, postumamente publicado pela editora Sarrar. Certa vez, em um passeio pela região, o pesquisador observou que um pombo voava dentro de uma construção. E quem é que ficaria reparando em um pombo na cidade de São Paulo? SIMON ficaria.

Segundo o relato do sábio, o pássaro arrulhava continuamente, emitindo barulhos que ele categorizou como de ansiedade e de intimidação. SIMON entrou na construção, revisando as subdivisões. Furioso e sem respostas, chutou o topo de um monte de areia que, para sua surpresa, revelou as orelhas pontudas e a cara de bobo de um cururu de gaiola, que mexia sua cabeça para cá e para lá, como se estivesse buscando algo. O pombo, vez ou outra, perdia o controle do voo e passava perto demais do cururu, a ponto de levar uma dentada.

Pois bem, um cidadão comum, quando repara em tal movimentação, diz que o pássaro está “encantado”, sem poder alçar voo em plena liberdade, limitado a dar voltas em torno do cururu, que o “enlaça” somente com o olhar. SIMON estava intrigado e remexeu em um amontoado de entulhos. Logo encontrou a explicação plausível para a situação. Entre telhas, tocos de madeira e tijolos quebrados, via-se o ninho do pombo, servindo de proteção aos filhotes despenados. Conclui-se que o pássaro, ao se jogar da mesma forma que um camicase na direção do cururu de gaiola, tinha por objetivo salvar as crias da morte certeira, atraindo para si a atenção do predador.

Agora vamos ao cururu de goteira, o mais corpulento da espécie. Ele também recebe, pela sabedoria popular, o tal dom de fascinar e hipnotizar outros animais pelo olhar. Perceba-se aí o maior dos erros, pois qualquer biólogo sabe que todo e qualquer cururu guia-se mais pelo olfato do que pela visão, que é limitada. Disto surgem outras cenas interpretativas, quando um cidadão observa o ritual travado entre os cururus e suas presas.

A presa já parece saber que seu algoz não enxerga bem. O cururu de goteira, assim como o de gaiola, tem olhos implantados nas laterais do crânio. Então a caça fica parada à frente do cururu e, quando o predador vira a cabeça para a direita, a presa arrasta-se de lado, seguindo sua movimentação e mantendo-se diante dele. Quando o cururu vira para a esquerda, a presa move-se para a mesma direção, mantendo-se sempre no ponto cego do animal. Por isso, as pessoas pensam que ocorre uma experiência hipnótica.

Levanta-se outra questão: se os cururus não hipnotizam, podem ser hipnotizados? A dúvida é recorrente e logo vem à razão os tocadores de realejo, que há muito tempo costumam prender os cururus em gaiolas (daí a origem do nome) e utilizá-los para tirar bilhetinhos da sorte aos curiosos. Mas os estudos biológicos desvendam este mistério com facilidade.

Os cururus possuem coluna vertebral em formato oval, exatamente como o arco do teto das gaiolinhas. Além disso, as “casinhas” onde ficam presos têm dimensões internas bem ajustadas à metade posterior de seus corpos, o que impede que os animais escapem ou mordam. Assim, a criatura só tem mesmo a possibilidade de abaixar um pouco a mandíbula, levantar e entregar o bilhetinho aos turistas envaidecidos. Em troca, ganha frutas e por vezes insetos mortos, mantendo-se nutrido para a manutenção do trabalho.

Segundo SIMON, os cururus se acostumam com as gaiolas, considerando-as moradias seguras e, após algum tempo, não cogitam mais viver em outro lugar. As canções que saem da caixinha dos tocadores de realejo são meros artifícios para atrair público.

Confidenciou-me o pivô do Império Futebol de Salão, tradicional clube do Lauzane, que os tocadores de realejo são profissionais legalizados em diversas regiões. O ofício passa de geração em geração e, para proteger os futuros tocadores, o pai costuma extrair o dente de um cururu de gaiola, martelando-o até que vire pó. Então dilui a substância na sopa dos filhos para imunizá-los da saliva pinicante destas temíveis criaturas do bairro de Adelmo, o famoso “Canhota de Alazão”. Ao manusear os animais em atividade diária, os tocadores por vezes acabam mordidos, mas fingem não ter coceiras, porque devido à proteção, já fecharam o corpo.

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