Inseto Evangelizador: um estudo sobre uma espécie em expansão

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Não se sabe ao certo quando os enxames do Inseto Evangelizador (Biblis fanaticus) abandonaram as periferias das cidades, os charcos paupérrimos, as ruas de lama e sem iluminação, e resolveram que templos de mármore nos grandes centros seriam um habitat mais adequado.

Originalmente tais criaturas se alimentavam somente de bolo e guaraná em temperatura ambiente, retalhos de bíblias surradas e amareladas de suor de axilas e aleluias, muitos aleluias, mas o gosto por alimentos dos outros insetos e certa predileção por caros destilados logo se fizeram presentes. Acompanhávamos, com entusiasmo, a rápida evolução de uma espécie, conforme Darwin havia escrito! (Nota do autor: por alguma razão desconhecida, a citação do nome “Darwin” funciona como eficiente repelente à sui-generis espécie).

Ao menos uma vez por semana nuvens formidáveis realizavam rituais ainda pouco compreendidos, quando simulavam a cura de outros insetos ou quando tentavam expulsar o mal de seus corpos, cantando alto como cigarras no verão, prestes a explodir. Como o Inseto Evangelizador tem certo poder de absorção de outros através de mecanismos de metamorfoses ainda não bem documentados, alguns cientistas creem que tais ritos têm a intenção de aumentar o enxame, já que a espécie tradicionalmente sempre foi avessa ao sexo. (Gunther Weissfüder, famoso entomologista forense austríaco, alega que toda a reprodução dos I. E. se dava por partenogênese, contudo, o senhor Gunther ganhou fama internacional ao afirmar que baratas voadoras eram a prova da existência de Deus e que o criador não gostava de mulher).

Conforme novas colmeias e vespeiros se formavam em áreas mais nobres, um novo ritual – em verdade antigo, mas nunca usado com tanta intensidade anteriormente – se fez presente: o denominamos “dízimo”. O nome foi sugerido depois de algumas gravações dos ruídos irritantes emitidos durante tais sessões: dizzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz-mo!

Se antes contribuições espontâneas e modestas dos membros eram bem-vindas, conforme o ritual cresceu em importância, os zangões líderes dos grupos passaram a ser mais contundentes e não evitavam usar força para obter mais, cada vez mais. Logo ficou clara a divisão do gênero em subespécies: o I.E. pastor (Biblis fanaticus vorax), o obreiro (Biblis fanaticus socius), e a ovelha (Biblis fanaticus ignorantis).

O zangão pastor provocaria as ovelhas com desafios e promessas de rápida evolução social: novos ninhos, melhores posições na hierarquia do enxame. Os obreiros reforçariam os pedidos dos zangões, passeando entre as ovelhas e destacando quando alguma pobre se tornasse mais pobre, cedendo toda a sua cota de mel, seu ninho e todas as suas posses de maneira irracional.

Observou-se então a incrível transformação da espécie: os citados zangões desenvolveram ganchos coletores, novas glândulas produtoras de saliva, que lhes permitiam zunir sem parar, e dura couraça, capaz de proteger seus corações de qualquer tentativa externa de comoção. Os obreiros, por sua vez, criaram patas envolventes, capazes de carregar casulos enormes, cheios de contribuições, cresceram neles couraças resistentes também. As ovelhas, contudo, involuiram: tiveram nítida redução encefálica, raramente então eram capazes de notar o abuso das outras subespécies, senão quando tarde demais. Em geral apenas repetiam os mantras, sem pensar.

Outra mudança observada na dinâmica do grupo foi a crescente intolerância à diversidade. O Dr. Hugo Norreia, estudioso de coleópteros, observou que algumas variedades de besouros negros de asas brancas (Batucadus oxumicus), comedores de frutos do dendezeiro, e praticantes de rituais que envolviam batucadas em troncos ocos, eram frequentemente atacados pelas ovelhas do Inseto Evangelizador. Acredita-se que os zangões fomentaram os ataques, por disputa de territórios e de novos membros. (Curiosamente, anotou o Dr. Gunther em seu livro “Insetas Wunderschöne de todo Terra”, os I.E. adotaram as danças e os ritmos de seus concorrentes sem qualquer escrúpulo).

O Dr. Hugo ainda notou o rápido declínio dos besouros rosa com pintas douradas (Gloriagaynurs aiuilsurvaivis) nos arredores das novas colmeias dos I.E. Por alguma razão ainda não confirmada, talvez pelos pouco ortodoxos métodos de reprodução da espécie, talvez pelos frequentes shows de dublagens em palcos improvisados ou por simples incompreensão do estranho dialeto usado pelos lindos coleópteros (“desaguenda”, “mona”, “chuca”, etc.), enfim, passaram as ovelhas a caçá-los impiedosamente.

Hoje, ao passear por qualquer grande cidade do Brasil e mesmo no exterior, podem-se observar os opulentos vespeiros de mármore com frisos dourados, a transmissão de seus zumbidos irritantes em frequências captáveis por rádios e tevês, a perseguição dos ditos concorrentes ou dos divergentes dos seus costumes. Não restam dúvidas: o Inseto Evangelizador, que a seleção natural transformou e fortaleceu, veio para ficar!

Nota do autor: recentemente notou-se que a presença de universidades e de boas escolas nas proximidades dos vespeiros tem causado o fenômeno de “despertar” de ovelhas, que de alguma forma tiveram seus cérebros restaurados e abandonaram e atacaram seus zangões. Contudo, como a espécie é muito dinâmica, espera-se de suas lideranças um ataque às escolas, de forma que dificultem o citado “despertar”.

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