O bom partido

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O comportamento estranho de Alcides começava a incomodar os presentes no enterro. Parecia perturbado, caminhava, ia e voltava entre as muitas lápides, a terra tinha lhe subido até os tornozelos e roubado seus sapatos. Um cheiro desconhecido pairava no ar.

– O que é que acontece com o Alcides? – disse Giovanna.

– Eu não sei, o tio Alcides nunca demonstrou nada do tipo – respondeu um primo mais novo.

Ocorria, até então, tudo tranquilamente na despedida do morto, porém, após o caixão ser carregado pela família e colocado no jazigo ainda fechado, foi que o tio Alcides (chamado de Dinho) esganiçou a gravata e bradou algumas palavras de ódio. Uma vergonha para o partido.

E o partido não se tratava do homem partido, mas, o homem que partiu – ou seja – o também partido, fora o idealizador e fundador do próprio partido. Sim, pois aquela era uma família e um partido político, todos envolvidos desde cedo no progresso da sigla e não havia exceção. Ali parido, ali partido.

Até por isso, as mais velhas choravam e escondiam o rosto quando – dotado de grande espírito revoltoso – o tio Alcides profanou a bandeira que estava em cima do caixão com uma cuspida. E aquele foi o estopim. O grupo de policiais que homenageava o amigo morto cercou o provocador.

Confusos, os homens da lei seguraram Alcides e o arrastaram por mãos e pés, levando-o para a via que cortava o cemitério. Se não fosse pelo tenente, compadre antigo da família, eles teriam prendido o homem por desacato.

– Dinho, o que é que você tem? – disse Giovanna.

Ele tornou-se mais calmo, a mão, antes fechada e para o alto, agora enfiada no bolso. Abotoou a gola da camisa, ajeitou a boina e, confuso, disse:

– Meu Deus! Aonde é que estão os meus sapatos?

– Mas! Você andava descalço há pouco, veja as solas cheias de barro.

– Calúnia! Eu nunca faria circo em enterro de grande figura do partido!

– Pois é. E ainda catarrou no caixão.

Alcides parecia tonto, negava as acusações, mexia a cabeça, ajeitava-se, batia a poeira do terno, então pediu ao grupo de policiais que o levasse de volta ao ritual fúnebre.

– Tudo bem, Alcides. Mas prometa se comportar, ok? – disse o tenente.

Todos se lembraram da conduta exemplar do tio ao longo dos anos, então, deram-lhe uma segunda chance. Parecia tudo bem. Postado um pouco atrás dos oficiais, o homem tirou um lenço do bolso e enxugou o rosto.

Os coveiros tinham chegado e, entre os montes de terra que fechavam o buraco, parentes jogavam pertences que os faziam sentir ligados ao morto. Um selo raro, uma foto dos primórdios partidários, cartas, flâmulas e até santinhos. O susto foi geral e um tiro involuntário foi disparado quando, no meio daqueles objetos, caiu uma coisa estranha. Giovanna berrou.

– ALCIDES! MAS, PELO AMOR DE DEUS!

Novamente descalço, com os bolsos pra fora e gingando as pernas, Alcides tinha trepado na lápide vizinha. Alisava a careca e gritava.

– Até a minha peruca este verme tentou roubar! Leve contigo essa porcaria, ranheta!

O tio pulou e começou a sapatear na cabeleira castanha ao chão e deslustrou mais uma vez a memória do partido, aliás, dos dois partidos. Os primos tentavam lhe agarrar, mas estava o homem em possessão perturbadora e se contorcia como louco. Parando o serviço pela metade, os coveiros olhavam o espetáculo com curiosidade. Foi quando Alcides saiu em disparada, sumindo ao longe.

Na tentativa de procurar o infeliz – fosse para lhe dar uma sova ou ajudá-lo – a família começou a circular pelo cemitério – e nisto encontraram jazigos de velhos parentes já há muito esquecidos, uma maioria de tumbas onde se viam slogans e símbolos da chapa.

– Os corpos do partido deviam estar todos juntos, representando união! – disse Silvia, a viúva do finado.

– Não diga bobagens! Embaixo da terra, que diferença faz? – disse Giovanna.

– Aonde já se viu? Os nossos serem enterrados no meio dessa gente sem procedência, no meio de uns quaisquer! Há de se elaborar um projeto para que os próximos que partirem – Deus me livre! – sejam enterrados lado a lado!

Giovanna buscou colocar aquelas palavras em algum lugar da cabeça, onde pudessem ser esquecidas. Ao encontrarem Alcides, os familiares foram carregando-o em procissão. Retornaram ao jazigo, que agora estava quase coberto de terra pelos coveiros, e camuflaram o homem numa fila.

– Vamos continuar! – disse o tenente.

– Iauuu! Mas não vão mesmo! – disse o tio.

Ah! Lá estava Alcides, destacando-se do todo novamente e agora puxando a pá de um coveiro para que ele não trabalhasse. Brigou até tomá-la, jogou o objeto para longe e bateu palmas, satisfeito. Os outros coveiros ameaçaram-no, mas ao ouvirem o pedido desesperado de Giovanna, deram trégua ao homem perturbado.

– Terminem logo com isso, por Deus! – gritou o tenente.

Os coveiros voltaram a preencher o jazigo, mas, cada monte de terra jogado recebia de volta uma força incomum, que espirrava barro de volta aos familiares do morto. Alcides tinha se acocorado de novo na lápide vizinha, ria com os braços cruzados e desafiava a todos com um olhar adolescente. Foi quando um grupo com os mais velhos do partido tomou à frente e começou a fazer uma pequena reunião.

– É hoje que esse enterro não sai, aaaaaaaai! – dizia Alcides.

Logo Giovanna passou pelo meio da panelinha de anciões buscando explicação, saiu boquiaberta e tropeçou no próprio salto com a revelação. Um dos velhos apontou o dedo, acusando o tio amalucado e gritando palavras de ordem, que eram retrucadas por Alcides com bananas e outros gestos obscenos.

– Alcides, você não nos engana, homem! Está tomado pelo espírito do tio Genaro!

– Genaro? – disse um presente. – Mas por acaso vocês não estão falando do velho Genaro Farfarelli, estão?!

– O próprio, o próprio!

Bastou que a multidão ouvisse aquele sobrenome para que todos se transformassem em monstros.

– UM FARARELLI!

– ENTRE NÓS!

– RE-MATEM O MALDITO!

– QUEIMEM O VELHACO!

Mas não foram suficientes os protestos contra o espírito. O solo da tumba de Genaro parecia mais fértil do que o normal e se espalhou, a terra encobria os pés dos membros do partido, levando seus sapatos. Uma espécie de geleia verde subia pelas canelas. Eles começaram a ter comportamento adverso. Em vez de tristes, foram tomados por uma felicidade extrema, pulavam, festejavam e faziam passos de dança em meio aos caixões. Um vapor chorumento invadia narinas e muitos diziam que aquilo ali só podia ser enxofre, que o tal Genaro tinha pacto com Belzebu. Alcides comandava seu grupo:

– Tomem um pouco do que me deram, chauvinistas!

– Mas pra que tudo isso, Genaro?! – interrompeu Giovanna. – O que é que você ganha com isso?

– Giovanna! Mas continua uma belezoca! – disse o espírito.

– Não seja galanteador, Genaro!

– Você me jogou fora como uma casca de banana, lembra-se?!

– Continua o mesmo! Pra lá com suas bobagens!

– Teríamos sido tão felizes, Gigica!

– Eu não joguei ninguém fora, Genaro. Mas, já que quer saber, direi! Eu não casei com você, porque você nunca tomava banho, estava sempre fedendo, homem!

A revelação de Giovanna abalou o velho de tal maneira que abrandou suas forças. Todos riam e repetiam que seus pés fediam a queijo parmesão e seu sovaco não era menos do que uma caverna de gambás. Em coro, eles entoavam: “catinguento!”. O rosto do possuído Alcides derretia como lama, e agora a voz de Genaro dominava suas cordas vocais. “Desgraçados!”.

O tenente bolou um plano e fez um sinal para que os coveiros e outros que estavam fora de possessão se mexessem. A turma girou os irrigadores de grama na direção do solo de Genaro e logo seu espírito esverdeado pulou do corpo de Alcides, voando alto, desviando-se dos jatos d’água. Ele sumiu entre as nuvens, os possuídos voltaram ao normal e vagavam pela grama perguntando por seus sapatos.

Os líderes do partido decidiram que o enterro jamais poderia seguir com normalidade depois de tantas contravenções, era preciso reunir a chapa e discutir muito, pois se sabia que Genaro era um tinhoso e continuaria ali, tentando profanar a memória de todos. Saíram em caravana do cemitério e reuniram-se na sede mais próxima.

Por uma hora, revisaram e leram uma série de decretos e promulgaram nova norma para tais eventos excepcionais. Agora sim, estavam prevenidos. Voltaram, o enterro começou outra vez. O único incômodo foi que os coveiros gargalhavam ao encobrirem o caixão, pois os membros do partido despediam-se do morto equilibrados em pernas-de-pau.

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