Vampiros cordiais

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A cena hoje é rara: o trabalhador em fim de turno, sonolento pela rua, é subitamente arrastado por corpo estranho e sombrio até um beco sem saída ou aos subterrâneos do metrô, então, possuído pelos olhos de seu predador, deixa-se aliciar até que dois caninos alongados e pontudos entrem na pele de seu pescoço e lhe tirem boa soma de sangue. Após um grito e, geralmente, uma risada satânica, o caçado deita-se inanimado e logo é enviado a algum centro hospitalar. Já o predador, afasta-se com classe e apresenta desmedida empáfia enquanto lambe os caninos saltados, ainda viscosos, empanturrado e empapado de sangue humano.

Foi um surto. Talvez tenha sido a popularização da ética por meio de pensadores midiáticos, já outros dizem que foi um mero acaso. A ideia parece ter se espalhado subitamente pela comunidade hematófaga. Como moda que entra e sai em ano ou outro, aqueles seres dotados de ar entrevado, feições abismais e ar vitoriano, optaram por roupas de corte moderno – uma maioria de camisetas com golas em V – calças justas, pele com bronze artificial. Até mesmo as capas enrolaram-se ao redor do pescoço formando charmosos cachecóis! Manteve-se, porém, uma de suas características originais, as cabeleiras cheias e vistosas.

São sanguessugas contemporâneas e, a característica mais marcante de sua nova política é a educação e o polimento nos tratos com qualquer cidadão. Essa geração de entidades fantásticas opta por solicitar, pedir, até mesmo esmolar o alimento para suas necessidades vitais. Ou seja, o vampiro, modernizado e ocidental, simplesmente convoca o civil a lhe dar sangue por gentileza ou compaixão. No começo, alguns vampiros utilizavam-se da afirmação de que poderiam estar “sugando, mordendo ou matando” em vez de estarem ali pedindo, mas isto logo foi condenado pelo “Manual Oficial de Conduta e Bons Modos do Vampiro”.

Logo foram alcunhados pela sabedoria popular como vampiros cordiais por manterem continuamente a preferência pelos finos tratos. Ao contrário dos vampiros tradicionais, crepusculares e noturnos, os cordiais podem andar com considerável desenvoltura à luz do dia. Têm a capacidade de sociabilizar, caso queiram, mas passam grande parte de suas vidas em isolamento, fazendo áreas de natureza bruta o seu habitat natural. Na cidade, por exemplo, ocupam parques, praças, laterais de condomínios e pavimentos centrais de grandes avenidas.

Em São Paulo e áreas próximas, foi descrito em 1917 o primeiro relato sobre esta espécie: qualquer pessoa que caminha em parque aberto ou passarela de grande avenida durante o começo da manhã, sabe que por entre a vegetação está sendo observada por um vampiro cordial. Não são poucos os casos de cidadãos que foram levantados por estas criaturas amáveis após caírem durante atividade física, escoltados até suas casas para que não corressem perigo ou que tenham encontrado ouvido amigo, disposto a escutar desabafos, longos causos e piadas. Embora toda alegoria de afeto seja natural aos vampiros cordiais, sempre há o posterior pedido por uma soma de sangue, nem que seja uma pequena sucção na parte mais recheada do polegar, no lóbulo da orelha, onde basta que se tire o brinco para doar quantidade suficiente! Até hoje os profissionais do sexo utilizam um jargão inventado por aqueles espécimes, “vai uma chupada?!”.

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Antigos boletins da Força Pública indicam que os soldados, avistando ao longe um grupo de pessoas tocando-se em local escondido, davam ordem de prisão por atentado ao pudor e crime de vadiagem, mas somente depois percebiam do que se tratava: uma troca conveniente entre vampiros cordiais e cidadãos. Fotos de época refletem visões no mínimo perturbadoras: senhoras com os pés descalços e unhas pintadas sendo lambidas por homens e mulheres extasiados, jovens com uniformes escolares caminhando de mãos dadas aos excêntricos com roupas de grife, fora os montinhos nutritivos. Enfim, composições que somente grande artista poderia imaginar. Um cego, após receber ajuda de um vampiro, quase foi preso enquanto ganhava uma chupada no lóbulo, e há relatos sobre uma máfia envolvendo senhoras que traficavam absorventes úmidos, só por dinheiro fácil! Mendigos fingiam-se vampirescos, depois assaltavam o cidadão, e outras sandices. Muitos foram os enganos até que a coisa se tornasse ordinária e natural.

E os vampiros cordiais não precisaram ficar preocupados com uma possível sequência de negativas, que os poderia levar até mesmo à morte. Com a pulverização da espécie, alastrou-se uma onda de aficionados pelo tema. Fanáticos com disposição para nutri-los por simples vaidade. Em bairro nobre, uma socialite começou a organizar grandes festas onde estas ilustres criaturas protagonizavam, e as pessoas costumavam marcar presença para embebedá-las com seus fluidos etílicos. Logo alguns vampiros afáveis seriam presença em colunas sociais, programas de televisão e concertos de música, tamanha a curiosidade que despertaram. Um deles até modelou para marcas de valor.

Porém, estudos da comunidade científica detectaram um fenômeno perigoso. Descobriu-se que com uma rajada de vento gelado, podia-se transformar um vampiro cordial em um tradicional. Algumas meninas, para exercitar a picardia, chamavam um vampiro cordial e, de supetão, assopravam-lhe as faces simplesmente para ver o que acontecia: a feição, antes natural e singela, ganhava tons avermelhados e de natureza nada sutil. As sobrancelhas engrossavam, descendo suas pontas na direção do nariz, e indicando que ali havia um ser colérico. Os olhos tomavam-se de cor avermelhada e irrigada, os cachecóis engomados desenrolavam-se, voltando a ser longa capa vermelha ou preta a se arrastar pelo chão. Por último, os caninos saltavam dos lábios, apontados para as próximas vítimas.

Por isso muitos vampiros cordiais optaram pela utilização de capacetes, o que costuma causar muita discórdia à repeito da manutenção de suas cabeleiras. Mas isso não é o mais importante para a maioria. Com a proteção, escapam de voltarem ao estado sanguinário e primitivo, mantendo seu ar respeitoso e formal que tanto agrada o cidadão comum.

Mas, se deixam de ser violentos, por outro lado, os vampiros cordiais não têm mais vida eterna. O fenecimento em hematófagos desta espécie é nítido e, por isso, enquanto estão nos primeiros anos de afabilidade, passam a maior parte do dia se limpando, alisando as madeixas e, quando suas roupas tornam-se puídas, trocam por outras: lustrosas, novas, brilhantes e de cortes arrojados. Verdadeiros duques! Quando velhos, ao contrário, deixam estas vaidades para as novas gerações e mantêm-se com as mesmas vestes durante os últimos anos de vida, e a higiene do ânus também começa a escassear.

Os mais jovens, por crueldade, vivem a arrancar os cabelos dos vampiros idosos, deixando-os com as cabeças tristes e desnudas. Bolores instalam-se ao longo da pele dos decrépitos, que começam a apresentar artrites e artrose. Sabe-se que com somente um erro na passada, uma perna inteira pode voar ou desconjuntar-se do corpo. Alguns vampiros cordiais tem o costume de manter-se em jejum quando percebem que estão perto da morte. Outros, em contrapartida, bebem desesperados e se demonstram atormentados, mas estes também morrem.

(Texto: Rodrigues – Ilustração: Kellen Carvalho)

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