Te amo no fogão

jane

Estávamos escondidos no quarto enquanto escutávamos “Je t’aime moi non plus”. Aquela música era linda. Eu tinha comprado um compacto junto com o meu primo, rachamos pau a pau. De um lado tinha essa música que tanto gostávamos e, do outro, eu não me lembro. Colocamos o disquinho na vitrola e ficamos ouvindo aquela beleza, os gemidinhos e toda a atmosfera excitante do som. Foi quando duas batidas na porta nos tiraram a atenção. Minha tia entrou no quarto e perguntou o que estávamos ouvindo. Foi quando a mulher da canção gemeu bem gostoso, e o cantor gemeu mais forte ainda, parecendo estar fungando no cangote dela ou coisa pior. Minha tia desligou o toca-discos, arrancou o vinil e saiu do quarto. Tentamos convencê-la do contrário, mas a senhora parecia possessa enquanto marchava para a cozinha. Pegou a bolacha e derreteu no fogão. Ela pegou o nosso vinil novo e, como se não ouvisse os nossos gritos de desespero, fez o bichinho derreter no fogo alto e mandou pro cacete todos aqueles gemidinhos gostosos, o som bacana do órgão e, enfim, as nossas economias.

– Mas, e aí? O que é que vocês fizeram?
– Ah, a gente comprou outro.
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