Rainha do Mar

“Gostaria de não ter visto aquilo”.

Doses maciças de vodca não conseguiram aquarelar a imagem que Bernardo trazia em seus neurônios. As juntas ainda lhe doíam ao fazer qualquer movimento. O diafragma comprimia-se como um folie sem ar suficiente para se expandir em sua caixa torácica. Seus olhos pesavam. Sentia calafrios só de pensar em…

*****

Aquela tarde havia começado bem estranha, tornando-se noite muito mais rápido do que costumava. Se não fosse a neblina rala e brilhante que caía sobre o mar, Bernardo descartaria a presença dos seres pequenos que se avolumavam nas ondas. Teriam sido facilmente confundidos com pirilampos, não fossem as asas tênues em forma de foice.

De repente, Bernardo percebeu que aquilo não era normal. Teve medo, um medo conhecido, como um eco em sua mente.

As criaturas estranhas enroscavam-se em conexões elétricas com as ondas do mar. A espuma avermelhava-se em pinceladas de neon. Um fenômeno natural, diriam. Entretanto, a cor entre o rubro e o alaranjado tornava tudo surreal.

Aos poucos foram surgindo os curiosos e os incrédulos. Pessoas vinham de todos os lados. Formaram uma rede desalinhada na faixa de areia e espalharam-se pelo calçadão.

Todos se espantaram com a quantidade de asas pequenas rolando pela areia, semelhantes a conchas abandonadas. Surgiam vazias como oferendas rejeitadas pelo ventre do oceano. Apresentavam-se com suas formas arredondadas, ocas e semiesféricas como foices. O símbolo da Morte. A noite estremeceu. Mau presságio! Todo aquele mar e o som de cigarras alucinadas devoravam o silêncio.

− Vejam ali, há muitos outros! – gritou uma mulher com voz estridente. − Eu avisei que essa Lua não traria nada de bom – completou.

− Tu fala muito, mulher! O que a Lua tem a ver com essa doideira? – retrucou um senhor de semblante tão atarracado quanto o corpo.

Bernardo cruzou os braços e começou a balançar como impulsionado por um vento repentino. Sentia-se uma grande vela rasgada, sem forças para conduzir a própria direção. Franzia a testa e trincava os dentes. Já havia presenciado fenômenos curiosos, eventos fantásticos, mas aquilo era completamente diferente.

Foi uma questão de segundos para o cenário transformar-se em pesadelo. Muitos gritos foram abafados, o espanto tornou-se maior do que o desespero. Era sangue que se expandia livremente pela água salgada. Como mil partos no ventre do oceano.

− É isso, então! – disse a mulher já quase sem voz.

− O que foi agora? – o homem atarracado continuava impaciente, mas também não conseguia entender o que acontecia.

− Não vê que essa extensão de água está coberta de sangue? Não do nosso, mas do tipo DELA – a mulher respondeu, mas não ao marido, que parecia entrar em algum tipo de transe. Ela falava diretamente a Bernardo, como se o reconhecendo de algum lugar. Aqueles olhos não negavam um elo no passado.

Os dois olharam-se como se a partir dali nada mais fizesse sentido. Bernardo sentiu as pernas bambearem. Seu avô sempre lhe contara a mesma história, todas as noites. Um velho conto de horror sobre a criatura mais bizarra que as profundezas do mar abrigaram algum dia.

− Ali! Perto daquele navio! – um pescador velho chamou a atenção de todos.

Mesmo de longe, todos puderam ver os tentáculos da coisa. Enormes troncos, de extremidades infinitas, emergiam. Eram de uma coloração pálida, com listras deformadas em terminações roxas.

− E aqueles caras da NASA disseram que ela não existia – a mulher insistia em travar um diálogo com Bernardo. − Eles não sabem de nada. Se soubessem, não teriam se apavorado com…

Bernardo balançou a cabeça consentindo. Agora sabia quem era aquela mulher que tentava reconhecer. Mesmo sem o uniforme, Dra. Martina Lobato não se faria invisível.

Estancaram em silêncio, pois a areia começou a ondular. A terra movia-se aos solavancos. A presença da devoradora de salinas submersas predominava sobre tudo.

Martina ajeitou os óculos. Era simplesmente impossível absorver o que via como algo natural. Deveria estar sonhando ou sob os efeitos de uma droga potente. Forçou o olhar para captar alguma familiaridade na cena.

A cabeça da coisa, enorme saliência que encobria os navios mais distantes e se erguia sobre a neblina, de repente encolheu-se em côncavo, produzindo em seu topo uma cratera fumegante: um vulcão – de onde se projetaram cinzas prateadas. As fagulhas espalharam-se feito estrelas.

− Uma coisa não se pode negar: ela sabe fazer um belo espetáculo – Dra. Martina continuava a tecer comentários sem recepção. − Mas vocês sabem como essa peça termina, amigos? – disse ela.

Bernardo olhou para o lado e pôde ver o cientista polêmico, Apolônio Talma, aproximar-se, claudicante e com o conhecido ar extremista. Sua fama de ermitão excêntrico não embotara a exatidão de suas previsões. Seus conceitos baseavam-se em cálculos e experiências repetidas à exaustão. Apesar de solitário, era considerado um gênio, assunto em todas as mídias, fosse por bem ou fosse pelo interesse que sua figura bizarra provocava.

− Professor, é sempre um prazer recebê-lo em minha orla – Dra. Martina apressou-se em dizer.

Apolônio assentou o chapéu na cabeça e torceu a ponta direita do bigode ao melhor estilo Nietzsche. Não era hora de se deixar enervar com bobagens. Assobiou de forma estrondosa e seu ajudante, um rapazinho de pele descamada e olhos saltados, pôs-se próximo, carregando um grande volume de equipamento.

− Descarregue tudo aqui e monte a aparelhagem. Sinto que teremos pouco tempo para registrar o evento.

Isso se sobrevivermos à coisa, pensou Bernardo. As ondas pareciam mais altas e fortes, pedaços de troncos carcomidos e forrados de peixes mortos surgiam na beira do mar. Uma oferenda estranha devolvida aos pés de Iemanjá.

− Que os deuses nos perdoem! – disse Bernardo, sem se dar conta.

− Guarde suas lamúrias! – retrucou o professor, já bem irritado com aquele ar de fanatismo e superstição à sua volta.

Bernardo calou-se e se distraiu com a leva de repórteres que invadiam a faixa de areia. A balbúrdia instalou-se com flashes pipocando e vozes misturando-se à maresia.

Enquanto isso, Apolônio passou a ser entrevistado de forma frenética e deu respostas breves, o que só aumentou a voracidade por informações. Tentou desvencilhar-se dos repórteres para poder voltar sua atenção ao ser que ganhava cores e velocidade, debatendo-se na água salgada. Ondas cada vez maiores derrubavam pessoas que se aventuravam pela beira do mar.

A ignorância trouxera desolação àquela noite. A criatura não teria surgido se não fossem as camadas sucessivas de areia roubadas pelos homens. Os empreendimentos imobiliários que se apropriavam do material orgânico como se ofertado gratuitamente. Mas a natureza nada dava de graça e aquela parecia ser a hora de retomar tudo o que era seu.

Os repórteres retornaram ao calçadão, acotovelando-se e insistindo em uma oração que parecia inútil. Quando tudo parecia ser destruição, o mar serenou. Tingidas de sangue e ainda recebendo brasas em suas espumas, as águas planavam sem ondas, chapando aos poucos a linha do mar ao horizonte.

Ela, sem anúncio ou qualquer sinal previsível, desapareceu. A areia reagia em resistência pegajosa. Bernardo tirou os óculos. Deveria ter ficado cego ou louco. Ou as duas coisas juntas. Aquilo era simplesmente impossível de acontecer ou, pior ainda, de desacontecer. Virou-se para falar com o professor e descobriu que ele e o moleque já abandonavam a areia.

*****

O som continuava a repetir de modo insistente. Bernardo tentou ignorar o toque irritante do celular, que quebrava o transe hipnótico.

Sentou-se na cama e alcançou os óculos. Arrependeu-se logo depois. As imagens, antes guardadas atrás das pálpebras, tingiam agora as paredes do quarto.

Bernardo esticou o braço e pegou o telefone em cima do criado mudo. Atendeu a ligação com a má vontade de um sobrevivente sem esperanças. Reconheceu a voz do lado de lá, rouca, envelhecida pelo álcool e alcatrão.

− Professor, o senhor acha que essa foi a última vez que vimos a coisa?

Depois de uma longa pausa. Uma pausa que pareceu arrastar-se para o fundo do oceano, Apolônio não respondeu.

– Professor?

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