Nem ligo

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Rosa.

Esticou e cruzou as pernas antes de ler o jornal. As manchetes eram as mesmas há mais de uma semana. “TORNADOS DESTRÓEM AMÉRICA DO NORTE”, “JAPÃO E OCEANIA ENGOLIDOS PELO MAR”, “CRISE MUNDIAL AFETA TODOS OS CONTINENTES”. Dobrou a publicação e, com cuidado, colocou na cadeira ao lado. Acendeu um cigarro. Preocupada, passava as mãos nos cabelos, tilintava a colherinha de açúcar no pires vazio, balançava suavemente os pés sob a mesa.

Borges entrou. Enxergou a moça ao atravessar a porta e sentou com pressa, nem percebeu o jornal na cadeira. “Borges, você sentou em cima do jornal”, disse ela. “Nem vi”, respondeu. Apanhou o periódico e ficou parado por um instante, observando a imagem de pessoas no meio de escombros. Rosa pediu dois uísques. “Duplos”, reforçou. Foi quando Borges discordou: “Eu prefiro guaraná”. Os dois davam leves goles. Calados, observavam a correria do lado de fora da vitrine que os separava da praça.


Um garçom, parado ao lado do balcão, estava atento aos pedidos. Ao sinal de Rosa, entrou na cozinha e escreveu algo na comanda. “Eles querem mal passado”, disse. A bandeja flutuava com carnes vermelhas, os pratos foram colocados à mesa com discrição. Começaram a comer. Antes da primeira garfada, Borges disse:

– Essa carne parece boa.
– Sim, gosto quando vem sangrando. Esse bar não é dos piores.
– O problema é a barulho.
– É, podia ser mais silencioso.

Os jornais ocupavam todo o espaço da programação normal, eram novidades mórbidas atrás de novidades mórbidas. Todos estavam enjoados de tanta notícia ruim e de gente engravatada com laquê no cabelo. Apenas o canal 55, como forma de protesto, resolveu transmitir a Orquestra da Destruição. Após o início dos desastres, um grupo de sete músicos resolveu se trancar no Teatro Abóbada e tocar sem parar.

– Bota aí no 55! – ordenou Borges.

O garçom fez uma cara azeda, mas mudou de canal. As mesas ao lado chiaram, disseram que o rapaz era um subversivo. A situação no Teatro Abóbada não era das mais bonitas. Três músicos já estavam caídos, decompondo-se no chão. Os quatro que restaram estavam imundos, tinham defecado ou urinado nas calças. O violinista apresentava olheiras profundas, seus dedos cortados tiravam um som melancólico das duas cordas que sobravam no instrumento.

O pianista, com seu terno de pinguim, tinha as mãos roxas. Cabeça encurvada para trás, amparada por dois homens da equipe de tevê, engolia com dificuldade um energético que um terceiro lhe servia direto na garganta. A moça do violoncelo estava sentada, os cabelos escondiam seu rosto encovado enquanto tocava. Mas não os seus braços, tão frágeis quanto os de uma modelo anoréxica. Com os lábios molhados, cheio de cortes superficiais, um rapaz loiro que parecia ter uns 17 anos tocava uma gaita curtida num copo de conhaque.

Circulando os músicos, um público ouvia, talvez, a melodia mais triste de todos os tempos.

Era um som sem cadência, ora mais rápido, ora mais lento. A maioria das pessoas levava lenços com álcool junto ao nariz para evitar o mau cheiro. Alguns choravam nas velhas cadeiras do teatro, outros riam, grupos se embebedavam, mendigos dançavam, senhoras rezavam e os câmeras e repórteres do Canal 55, sentados no chão, observavam atentos.


No bar, Borges aplaudia. Rosa dançava suavemente com seu copo na mão, o gelo rodando, ritmado. “Eu quero que você me aqueça nesse inverno, e que tudo mais vá pro inferno”, os dois cantavam. De repente, as tevês desligaram, a música acabou. Eles sorriam. Pessoas corriam queimadas pela rua, as coisas que não derretiam se acabavam em chamas. Borges conseguiu tomar seu último gole antes que o guaraná evaporasse.

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