Gárgula

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Postava-se religiosamente todos os dias, no mesmo horário de entrada e saída, e ficava a fazer a guarda da gente toda, no alto da torre do Centro Público de Cultura. A corrente era de que essa mulher, da qual ninguém sabia a procedência – mas de que o público admirava o terno ocre, o lenço de seda vermelho no pescoço, o jeito ordenado de se movimentar como coruja – causava certo desconforto aos funcionários mais antigos da instituição estatal, embora trouxesse tranquilidade aos frequentadores diários do local.

Fora repreendida uma vez pelo diretor que, ao vê-la comer sua marmita sentada em uma escadinha, disse que local como aquele não era apropriado para refeições e que ainda atrapalhava o fluxo. Ela, então, envergonhada, mas, como sempre, mantendo a calma, afastou-se. Ainda com fome – visto que só tinha dado duas garfadas – retornou ao posto e se colocou novamente a observar o povo.

Fizeram-lhe maldade, porém, com algumas investidas durante um tempo: jogavam lixo no local em que ficava, bem de manhãzinha, antes que ela chegasse, para dificultar sua estada, mas não havia problema com isso também, logo ela ajeitava tudo com vigor, da sua maneira mesmo, improvisando daqui e dali, e assim as coisas retornavam aos lugares e tudo ficava até mais limpo do que antes. De outra vez, colocaram um trabalhador da construção civil a soldar coisas diversas, sem a mínima necessidade, só para ofender ainda mais a moça que, consciente, dava cabo da situação fazendo exercício de respiração meditativo, que lhe trazia calma para continuar, visto que não podia usar protetores de ouvido para fugir do barulho, ou perderia o foco da vigilância. Quanto ao cheiro de queimado, ah!, lembrava as torradinhas da vovó!

Perturbados pela eficiência e pela frequência da mulher e já sem paciência para dar continuidade nas torturas pequenas – percebam! algumas empresas fazem isso com seus funcionários por anos a fio! – logo, novamente o diretor abdicou-se – como bem disse a ela – das suas obrigações imensas e impreteríveis simplesmente para indagar o porquê de sua presença ali. Disse-lhe ainda: “essa é uma instituição séria e que não compactua com aventureiros e desalinhados”. Depois fez convite para que se retirasse do local imediatamente.

A mulher – que até então se mantinha atenta ao ofício – dispersou por alguns segundos a escutar o diretor e então respondeu com educação que não, não aceitava o convite e que se o homem tivesse algo melhor para lhe oferecer, que não se fizesse de rogado, podia ficar à vontade. 

Possesso com aquele argumento e demonstrando cansaço para replicar, o diretor arreou de vez: “qual é a sua, afinal, porra?!”. Dadas as novas circunstâncias, a moça partiu para cima e expulsou o diretor do Centro Público de Cultura. Aquilo ela não podia aceitar – não mesmo! – e enquanto carregava o homem dos impropérios pátio afora, ainda foi apoiada pelo povo que simpatizava já há tempos com sua conduta. Mas, ao contrário do que ocorre nos filmes, a poética da ação não rendeu à mulher grande coisa.

O burburinho no dia posterior no corpo burocrático do órgão era que a mulher sequer era uma funcionária, tratava-se de uma desesperada que forçava com sua atuação profissional e digna a que lhe dessem um emprego, tamanho o seu preparo e equilíbrio para a função. Aquilo era um disparate! Um carro dos oficiais havia feito uma visita àquela farsante na noite anterior e apresentado em mãos uma medida preventiva que restringiu seu acesso ao local pelo rigor da lei.

Soube-se também! Ela ainda pediu a um dos soldados para avisar a todos que muito se orgulhava de cada minuto que passara no local e de cada pessoa por quem pôde prezar pelo bem-estar. E não se sabe se era invenção, mas parece que, assim que entraram no carro, os oficiais viram a mulher escalar o portão da própria casa e se aninhar na ponta do telhado, colocando as duas mãos abaixo do queixo, como se fosse um gárgula!

Logo, os frequentadores do Centro Público de Cultura, já apegados à simpatia da vigilante, protestaram contra os administradores e reivindicaram o seu retorno. Disseram ainda que, fosse qual fosse o motivo do afastamento, eram todos ali bons sujeitos, pagadores de seus impostos e, portanto, muito mais donos dali do que eles todos. Sentiam falta também do uniforme: onde encontrariam alguém em um terno ocre e alinhado como aquele? O diretor, aliás, virou persona non grata no estabelecimento, “que figura triste!”, diziam.

Sem solução e novamente incomodados com a mulher, os funcionários pediram amavelmente o retorno da moça, que aceitou prontamente, com a classe que tanto lhe era usual. Tinham que acalmar os ânimos de alguma forma. Disseram que iriam até mesmo fechar contrato e ofereceram a ela um pejotinha. Ah! Ela se enfureceu no local, nem parecia a mesma. Disse que pejotinha “era uma ova!” e que não assinaria aquilo! Exigiu regime CLT.

Foi quando viu o diretor escondendo-se como cão magro atrás de um pilar, então apontou-lhe o dedo e gritou que não aceitaria mais nenhuma espécie de humilhação ou mal-trato, pois agora era uma registrada. E que mandasse reformar algumas estruturas, porque aquele refeitório ali, “pelo amor de Deus…”.

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