Luta de Classe

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O pessoal todo tinha saído do trabalho e conversava dentro do bar. As luzes eram fracas porque o dono do lugar não tinha dinheiro para pagar, assim como a limpeza era precária, viam-se as marcas das patinhas de barata estampadas na gordura das mesas e do balcão. Mas aquilo não era problema. Não para eles. Esbanjavam-se com a cachaça a qual se serviam sem modéstia, conversavam sobre qualquer besteira que fizesse rir, coçavam os corpos cansados e sem banho; e tudo isso como aperitivo para iniciar o prato principal, que só viria depois que os puxa-sacos fossem embora: falar mal da chefia.

Mas não deu tempo. Antes que os aduladores saíssem e depois da cachaça subir com força esquentando cara e pensamento, olharam como quem enxerga um fantasma a se revelar na porta do bar. Era o gerente. Entrava fazendo barulho e encarando a todos, a cintura propositadamente colocada pra frente como se o púbis assumisse posição de combate perante aqueles comandados de oito horas por dia, as mãos nos bolsos, os sapatos estalando ao som da canção alta a sair da jukebox pirata.

– O qui qui é?! O qui qui é?! – falava enquanto dava passinhos para um lado a para o outro, um desafio constante.

Não parecia alterado, nem contente de ter estragado a aventura dos peões, estava era ensimesmado, envolto em uma carência que buscava auto aprovação e, então, para surpresa de nenhum deles, sentou-se a uma mesa que estava vazia, colocando o cotovelo sobre a madeira e elevando o antebraço. Mão aberta, cinco dedos em dança chamando o primeiro oponente. Era claro, organizava ali um desafio de queda-de-braço.

– O qui qui é?! – repetia.

Os homens resmungavam sem se deixar ouvir, o estraga prazeres queria desafiá-los até mesmo ali, no bar onde se divertiam. Mas era mesmo um filho da puta. Sim, um filho da puta, um filho da puta de mão maior, um pela-saco, aliás, um saco de bosta. Mas não podiam deixar que soubesse, não, não podiam, porque um dos dons adquiridos por aqueles homens em muitos anos de labuta era falar sem se deixar realmente ouvir.

Ninguém propunha aceitar o confronto pois o plano era deixá-lo ali, amargo e sem propósito, até que fosse embora, e a festa pudesse seguir. Mas, um dos grandes puxa-sacos, ah! os puxa-sacos! lambe-cus! capachões! Um deles sentou-se à mesa quase que num abraço e, de propósito, perdeu e saiu como se sua mão estivesse ferida, tamanha a força da chefia. O gerente ria, mesmo a saber que tinha sido enganado, refestelava-se com a insignificância do outro e jogava cachaça na goela encarando o resto do pessoal, levantava o queixo para o alto.

– O qui qui é, mal acabados?!

Mal acabados?! Mas foi a gota d`água. Sentindo-se indignos de tal desafio e ainda por cima revoltados pela perda da celebração a que tanto tinham esperado, voltaram-se ao redor do gerente e arregaçando as mangas de suas camisas suadas, puseram-se a desferir socos bêbados para tudo que era lado. Os lambe-rabos logo entraram na trincheira do chefe e foi uma chuva de copos, pancadas e pontapés das quais não experimentavam há tempos. Uma senhora briga!

Em certo ponto do embate, arremessavam uns aos outros sem saber quem era quem e ao mesmo tempo conseguiam intercalar pausas: um virar do copinho americano de cachaça ou cerveja quente e ruim que o valha, e então retornavam à troca de sopapos e pontapés que muito lembrava um seriado pastelão.

– Vai dizer o qui qui é, agora?
– O qui qui é?! – dizia o gerente, a ser carregado pelo colarinho enquanto socava um baixinho que, distraído, baixara a guarda.
– O qui qui é? Pois, eu que o digo, o qui qui é?
– O qui qui é?
– Aaaaaaahhh!!! Filhos da puta!
– Aaaaaaahhh!!!

A lambança crescia. Aos poucos ninguém mais sabia o qui qui era nada, e os sujeitos que restavam entre as garrafas, copos, pernas de cadeira quebradas, mesas reviradas, amendoins, cigarros e cinzas pelo chão, estes bravos iam saindo porta afora enquanto os passantes da noite estranhavam um bando de marmanjos com roupas rasgadas, sujas e caras amassadas cambaleando meio de quatro, perdidos pelo chão no meio da chuva que acabava de começar.

O chefe encontrou-se sozinho no meio de uma avenida, andando em poças, esmurrando rastros de luz e pingos e dizia aos berros aos outros que escorriam por um lado e outro. “O qui qui é?!”. O mantra da destruição. Aos poucos o bar já não juntava mais de 3 gatos pingados, e as lutas continuaram por entre as vielas e ruazinhas do entorno, mas já estavam todos tão fracos que, ao darem alguns suspiros abobados, descobriram já sem lucidez que estavam quase socando suas próprias caras e rabos. Resolveram parar.

Logo estavam sentados novamente no mesmo bar, ainda mais escuro. O dono amedrontado espanava o balcão. Ajeitaram as mesas e, de um jeito amarrado, pediram desculpas ao proprietário, repetindo algumas frases de efeito que costumavam descarregar do peito nesse tipo de situação. O gerente voltara para fugir do aguaceiro e tentava dançar ao som da jukebox, mas ninguém mais tinha força para nada. Despediram-se e foram para casa.

No outro dia, chegaram ainda bêbados, o sol esquentava a cabeça inchada na entrada da empresa e mais uma vez na vida – após entabularem discussão filosófica – concluíram que realmente não era mais possível beber tanto assim. Viram então o gerente com a mesma cara de nada de sempre e guardaram a vontade gigante de mandá-lo, assim, bem cedinho, tomar no cu. Então bateram seus cartões de ponto e fingiram que nada tinha acontecido. Sentiam que tudo estava aparentemente normal.

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