Dicotômicos

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Eram iguais. Gêmeos. Dado isso, possuíam o dom cultivado de discordar em absolutamente tudo. Vingança à genética. Sentaram-se frente a frente na mesa do boteco e, em meio ao papo, relataram uma experiência estranhamente parecida.

  • Você sabe que essa noite tive um sonho? Porém, muito esquisito.
  • Eu também tive. E sem delongas posso lhe contar.
  • Ora! Desembuche de uma vez!
  • Estava eu, eu e você, junto de alguém familiar de que não me lembro, do meu filho mais velho e minha avó.
  • Inadmissível! Pois meu sonho se deu da mesma forma!
  • Escute, homem! Guardávamos um dia de tranquilidade, um domingo, talvez, e nisto Mao Tsé-Tung entrava, seguido por suas fileiras!
  • Olha lá! Está a raptar meus sonhos, pois comigo foi exatamente a mesma história! Mas, de diferente, invadia nossa paz o Benito Mussolini!
  • Está certo! E aguarde a vez. Dada a situação, Mao transformava meu filho em um depravado, um tipinho! E depois ainda nos colocava para trabalhar – eu e você! – como escravos, veja, ali na sala mesmo!
  • Pois bem! Mas, em meu sonho, Mussolini fez coisa parecida conosco! Primeiro, ele fez meu filho virar um reaça! Daqueles! E depois abriu sessão de tortura para eu e para você, ali na sala mesmo!
  • Mas, espere um momento, dizia-me que deste sonho também participava a sua avó.
  • Tem razão…
  • E então?
  • Bom! Primeiro deu-se que ele se apaixonou por ela!
  • O Mao?!
  • Sim! E ela correspondeu! Aliás, ela foi que o pescou.
  • Não me diga!
  • Depois transaram ali mesmo!
  • No duro?
  • No duro! A coisa pegou fogo!
  • Puxa, agora me sinto até menos mal!
  • Por quê?
  • Pois o mesmo se deu com a minha avó! Com uma única piscadela, criou paixão no Benito, e logo estavam fazendo amor!
  • Na sua frente?!
  • Na minha frente!
  • Cruzes, que sonho esquisito!
  • Põe esquisito aí!
  • Nossas avozinhas!
  • Mas algo me incomoda mais do que isso nesta situação!
  • A mim também, mas o que pode ser pior, não?
  • Pelo que me lembro, você bem disse haver no sonho alguém familiar, do qual não consegue recordar.
  • Sim, e enquanto ocorriam as barbaridades, ele ria sem parar!
  • Pois agora me lembro! O mesmo! Ele, recostado num canto, ria como um diabo daquilo tudo.
  • Além de rir, batia palmas!
  • Sim, ria e batia palmas! O desalmado!
  • Pois é, mas não sei… Quem era?
  • Quem era?
  • Ora, não sei!
  • Nem eu, nem eu…

Foi quando se deram conta de que um terceiro tinha sentado à mesa. Ele os saudava com uma taça de champanhe dourado e borbulhante enquanto dava tapinhas no ombro dos dois. “Que bonitinhos! Que bonitinhos!”, dizia, com um sorriso amável, parecia feliz.

O desconhecido em questão era o Ministro da Economia de então. O Guedes, poxa! O Paulo Guedes! Estava à vontade, de meias, papo pro ar. Um sujeito deveras familiar.

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