ASTEROIDES – Estrelas em Fúria

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Assim como vemos em produções clichê dos anos 80 – das quais essa história em quadrinhos do editor e quadrinista Lobo Ramirez tira a inspiração – ASTEROIDES: Estrelas em Fúria parte de uma exacerbação corpórea fundamentalmente exposta na sequência em que uma velha aleijada tem seus órgãos internos sugados e, depois, no trecho onde uma atleta sofre explosão muscular causada por meio de um remédio que, com certeza, destruiria o coronavírus.

As obras cinematográficas que inspiram o quadrinho ganham atualizações sagazes à medida em que comparamos, por exemplo, o vilão do submundo de Fuga de Los Angeles (que parece com Che Guevara e remete criticamente à paranoia estadunidense com o comunismo) em relação a Junior, criatura maléfica, como não poderia deixar de ser, que surge com uma chaga produzida pela própria falta de recursos demonstrada nos cenários do quadrinho, remetendo a uma cidade decadente e periférica.

Junior foi desenvolvido a partir dos detritos e pelo ódio que nutre por este lugar do qual é filho. Sendo assim, sua organicidade dentro da trama – da qual é um termômetro – aponta a criação de um personagem que simboliza – de dentro para fora – a miséria encontrada nas regiões centrais de muitas urbes brasileiras.

Há uma escalada poética em relação ao esporte retratado e colocado à prova não somente por atletas bem-alimentados, lindos e vencedores como vemos – víamos? – nos jogos olímpicos. Em ASTEROIDES – Estrelas em Fúrias – uma competição de saltos ornamemtais é disputada por gângsters, sujeitos decadentes e espúrios, trapaceiros.

Assim, estes seres bizonhos explicitam em suas deformações, físicas e morais, o famigerado espírito esportivo, sequestrado e subvertido pelos grandes patrocinadores. E não seriam mesmo criaturas aquelas máquinas programadas e treinadas unicamente para buscar durante a vida toda uma medalha dourada?

O esporte – sempre presente em outras criações do selo – aqui se apresenta também como um vício clandestino praticado nos recônditos esquecidos da cidade sem nome, organizado e disputado por entre o sono de trabalhadores, por entre varais que extrapolam janelas com camisetas onde se lê a inscrição “Rato Jorge”, calcinhas, meias e um pixo da gangue dos Flangos. Detalhes estes que trazem à tona uma sensação de familiaridade para com a história, uma forma de nos situarmos dentro do espaço e do tempo em que esta e muitas outras HQs da atualidade têm sido criadas.

Afora estes símbolos detalhados, é também nos diálogos que a ficção se aproxima, trazendo gírias (issae, motoca, carai!) e maneiras de falar mais despreocupadas com as formalidades.

A experiência de ler ASTEROIDES – Estrelas em Fúria – é gratificante. Há algo bastante pesado sendo retratado nestes diálogos e desenhos assustadores que buscam uma conexão absurdamente engraçada, mas, ao mesmo tempo, séria, com o leitor. É uma homenagem com ares simples, segundo consta, mas que já ultrapassa algo difícil de explicar. É Escória no melhor sentido da coisa.

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