Amálgama

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O homem acordou cheio de picadas pelo corpo, a mão suja com sangue ressecado no curativo, descansando em cima do peito. Não tinha saída. A próxima hora não se negava a surgir, e o Sol escondia-se por entre as copas da mata densa. Não há luz que as consiga perpassar, e o calor e a umidade abafam qualquer noção de tranquilidade que insurja.

Os troncos sacrificados na ponta da machadinha, vertendo o leite encorpado que tanto edifica sonhos nos lugares mais distantes do país, parecem assombrar seu campo de visão multiplicando-se entre as folhagens, arbustos, flores, insetos e pássaros que por vezes passam contando os seus segredos como em um canto inerte e frio do acauã.

O acauã canta para afastar os demônios e doutrina brancos, índios e negros em uma apatia monossilábica e repetitiva que dura uma vida. Eles passam o resto de seus dias a tremer, conjurar maldizeres, arranhar-se e dormir em redes isoladas de comunidades, moradas sozinhas e tristes onde entoam infelizes: “acauã, acauã, acauã…”.

O mistério amazônico parece perturbar o homem que, sozinho em meio ao excesso de seu esplendor, indaga-se sobre o porquê de tal terra iluminada ser motivo de tantos enigmas e pouca solução clara que a faça servir ao seu povo. A fome esmaga a divagação espontânea, jogando-o novamente na lida da vida de seringueiro seco que tem até mesmo o farelo alugado ao patrão.

Arregaça as mangas e esfrega as botas à beira do Rio Negro, espelhando o rosto suado e manchado na água lustrosa e fina que se espalha ondulante como moldura ao homem em busca de nutrição. Com um sorriso parco, demonstra a alegria que corre pela água e infere lágrima ao animal gordo e enorme que, distraído, se deixou espetar pelo arpão.

Na descendência da arte de matar do índio, o trabalhador luta pra tirar a força do inimigo submerso e após vencer o duelo, vê que precisa da ajuda de um pescador que vem passando. Assobia em pedido para puxar o bicho pro bote que quase vira com os muitos quilos, então  retorna à margem e abre a barriga do peixe-boi. Em ritual demorado, tira suas vísceras, faz fogo farto e paga a ajuda do gajo com parte da muita comida.

Então se delicia com a carne viscosa e morna que parece matar a sede e a fome. Com fé, agradece pelo desjejum enquanto queima a gordura do animal e a despeja no resto para conservar. Guarda a mistura pastosa num pote e segue novamente através das águas procurando sentir o cheiro de troncos das seringueiras frescas da manhã. “Acauã, acauã”…

Caminha por entre um montante de árvores, risca-as uma por uma, de cima até o meio, desenhando no talho o funil por qual escorrega a seiva em transe contínuo a desembocar no balde de lata que começa a receber pingo por pingo e preencher o vazio de seu operador. Repete o mesmo processo em uma fileira de vegetais que parece nunca acabar e para somente quando a mão verte sangue entre os dedos e atrapalha seu trabalho indicando a hora da pausa.

Arruma o chapéu, alinhando o cordão que segue o contorno do queixo pontiagudo, coça a barba protuberante e, ajeitando-se no meio do barro, embebe-se com o suco acumulado dentro do caule herbáceo e verde que acaba de decepar com o facão. Não muito hábil, tropeça por entre o solo acobertado de sedimentos até que retorna ao bote. Estica-se em meio aos tecidos engordurados que sempre carrega e deita sentindo o cheiro do sangue do animal que o alimentou. Abre o pote, engole alguns pedaços e arrota com os pés descalços. Satisfeito com a primeira parte do dia de trabalho, calculando saldos e baixas, deixa-se levar no cochilo que, porventura, se fez merecedor.

O tumulto do entorno que forma música de vasta instrumentação pelo vento que sopra nas cordas, pedras, riachos e copas, acaba por assinalar a composição que finaliza o sono sem profundidade do homem cansado a boiar no bote. A hora parecia marcada, e ele naturalmente retorna ao meio das seringueiras a observar de bom grado os baldinhos que já quase transbordam. Faz o processo inverso e vai retirando com cuidado um a um, despejando a seiva em recipiente longo ao qual deixa pendurado no cinto. Ajusta mais um e após terminar a coleta figura com o sobrepeso balançando ao redor das pernas.

Retira os potes e coloca-os enfileirados, pasmo pelo volume farto, manuseia a terra de forma a edificar um monte  alto, perfurando-o por baixo até que se transforme em um forno pequeno de barro. Aninha madeira no vão e depois incendeia, dando escape ao vapor bravo que sai pelo buraco na superfície da composição. Defuma a seiva até que resseque e, gradualmente, ao manuseio prazeroso das mãos, endureça e vire uma peça arredondada e morna a ser ensacada junto às outras, dando peso ao produto final, valioso e esmerado do artesão.

Ainda marcado pelo calor, reacende à alma a memória repulsa advinda dos cercados em que passara grande parte da vida, a miragem dos casebres de barro apinhados de famílias, senhoras magras e puídas alinhadas em fila na busca pela água abundante, porém roubada pela falta de ações que a faça chegar naqueles rincões esquecidos do sertão, onde a morte planejada pela falta de políticas públicas banaliza a mortalha e extirpa até dos próprios afetados a compaixão. “Nossa vida não vale nada”, era o mantra que ouvia dos convictos criados em profusão.

Tirara a sorte grande? Não podia saber. Mas no retorno lembrava que toda aquela abundância ao seu redor – da mesma forma que a secura pregressa – amontoada e inerte por todos os lados, também não parecia de grande alento nem para ele e nem para os ali viventes, lembrava mesmo um pote de ouro a escapar de um túnel, ao final, sem luz. Estranhava estar ali, entremeado por tanta riqueza e, na contramão, tanta tristeza.

Ele pesa com uma balança – a qual também é cobrada pelo patrão – a matéria adquirida, arremata-a com cordas e retorna ao quarto, banha-se e finalmente pensa nas bolas cozidas que haverá de vender amanhã. Puxa a garrafa de aguardente e pensa ser um rei ao virar uma dose e sentir o relaxar dos músculos. Embriagado, se ajeita como pode no colchão duro e engordurado do barracão.

Alimenta-se também de sonhos onde rememora os boatos de pescadores e revive a existência do animal gigante que por vezes emerge dos rios para observar os homens sem nada fazer, por prazer puro de paralisá-los demonstrando o que somente um movimento de suas presas ou força corpórea poderia causar. O mito de observação contínua da Cobra Grande revira-se conforme a boca ou extensão do rio, por vezes mudando-o para animal carniceiro e devorador de crianças e adultos, conforme a predileção do contador.

Na visão sublime, está sozinho na beirada do bote e, quando o animal sobe abocanhando seus pés, ele grita em desespero: “acauã, acauã, acauã!”, o que faz a besta-serpente retrair e sucumbir novamente nas águas. Depois, o homem caminha por uma vereda de vitórias-régias e se depara com um agrupamento de amazonas. Ao vê-lo, as guerreiras fogem em desespero, fazendo-o acordar com o pensamento de que faz parte de um grupo de pessoas execradas pelo ninho da selva e, triste, ajeita-se na janela enquanto bebe água fresca na xícara, dolorido da noite mal dormida, e se arruma como pode no respingo frio do chuveiro lembrando a hora de saída da embarcação para a cidade. O sonhos retorcendo-se em redemoinho, agora ao cimento do chão, e o sentimento da monstruosidade a que se atribui.

Junto a outros caminhantes, que parecem uma tropa de iguais, lembra-se por alto ter ouvido no rádio, certa vez, que muitos como ele, cerca de um milhão de homens em busca do sonho da borracha, tinham rumado àquela região. Enfrenta, ajeitado na multidão de chapéus, no barco, discussões empíricas sobre o quanto o valor da atividade vinha diminuindo nos últimos anos. Os estrangeiros, pelo que parecia, tinham engatado concorrência pesada em países dos quais os nomes ninguém conseguia pronunciar. Então, perdido no meio desses tumulto de críticas, piadas e, claro, mais causos mágicos, desce parvo e inebriado com novas ideias que se articulam vagarosamente nos passos tímidos que dá agora no Porto de Manaus.

Assim como a indiada avistou Maíra no horizonte, o deus representante da civilização, a ingenuidade continuada propaga-se na visão do seringueiro ao ver os barcos do estrangeiro adentrando as cortinas azuis e brancas do Novo Mundo. O ar preenche-se com o vapor barato das chaminés negras das embarcações e perpassa acima dos homens acinzentados que estão em fila esperando pesagem e pagamento.

Espaço! – ele pensa. Tudo que se precisa é de espaço e trabalho para que a vida possa seguir, espaço e trabalho. E, se assim, fosse, logo estariam todos milionários, pois no país o que não falta é espaço, mesmo que se pense o contrário, e ao pegar as notas puídas da mão do rapaz da pesagem, sua face procura esboçar felicidade, a articulação entre as partes levantando os lábios com esforço num prosseguir de lustrosa e apequenada mancha ao fundo dos olhos. E, se o capital pouco ajuda, o castanho do rio brilhando por todos os lados, demora um pouco, mas faz com que ele guarde as notas amassadas no bolso e se encha de esperança novamente.

Após o balanço da volta, chega ao barracão inusitadamente enjoado, mas, para usar o banheiro novamente, precisa antes acertar o mês de gastos com o patrão, que assobia ironicamente por marcar presença. Paga a pena a que está exposto, vomita e logo está sem dinheiro algum de novo, pois amanhã é mais um dia de trabalho árduo e, assim como reza a lenda de alguns poucos, um dia ele irá prosperar.

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