2010

Era 2010. Bolsonaro gravava um vídeo com sua filha mostrando a cartilha gay que estava sendo aplicada nas escolas. Marcelo Tas era aplaudido em um programa que, por meio de denúncias, demonizava toda a política nacional e trazia à tona a figura do homem da cartilha gay. Livros revisionistas da História do Brasil eram publicados aos montes pela editora Leya. Eram livros que relativizavam o genocídio dos índios, ridicularizavam conquistas independentistas e por meio de críticas à vida pessoal de grandes personagens históricos, diminuíam sua importância. Luiz Felipe Pondé escreveu um desses livros. Luiz Felipe Pondé escrevia colunas na Folha, toda segunda, reivindicando que as guerras causadas pelo EUA no Oriente Médio serviam para proteger o direito do Ocidental de tomar vinhos selecionados da França. É, ele disse isso. Era 2010. Lady Gaga era a crítica ao modo de vida estadunidense. Lady Gaga… Lady Gaga dançava ao meio de vários dançarinos bombados enquanto o Brasil descobria o Pré-Sal. Os donos do país da Lady Gaga invadiram os nossos emails, os emails da Petrobrás, da Odebrecht, da Camargo Correa, mas os donos do país da Lady Gaga não invadiram os emails do MacDonalds, nem da Nike ou da Coca (a Coca, vejam, que criou um dossiê contra o dono da Dolly). Ah, a partir dali, não! O brasileiro simplesmente não prestava! Enquanto Lula posava de tiozão legal e dava o país na mão de uma incompetente, Dilma, todas as empresas nacionais de maior grandeza eram simplesmente dizimadas por dentro. Dossiês, emails, conversas, gravações, fotos? Tudo. Tudo sugado pela NSA, pelos pais corruptores do país da Lady Gaga, e vomitado por aquela boca de lobo que, no Jornal Nacional, posicionava-se estrategicamente na boca do Lula – que deu dinheiro pra Globo! (Bravo, burro!) – e que jorrava dinheiro pelo cenário do jornal, àquela altura já super modernizado, mas também brega como tudo da Globo. Enquanto a esquerda dançava Poker Face e Alejandro – talvez um herói latino – unidades alimentadas pelos livros da Novistória, das convicções de Olavo de Carvalho de que éramos todos achacados por uma revolução comunista mundial, que a Pepsi utilizava fetos para adoçar refrigerante, esses grupos se uniam atrelados ao dinheiro de fundações internacionais e logo surgiam MBL, Vem Pra Rua, Revoltados Online, entre tantos outros. Memes, notícias falsas, todo e qualquer tipo de ridicularidade era espalhado freneticamente pelas recentes redes sociais dos EUA, Facebook, Twitter, e invadindo e conquistando corações e mentes brasileiros. Uma mulher loira preocupava-se em defender Champinha, que arrancara fora com uma dentada o seio de uma garota de classe-média, enquanto o homem da cartilha gay dançava de óculos nos memes dizendo que não a estupraria por ela não merecer. Era 2010. E a loucura não vem de agora. Era 2010. E ninguém percebia nada, a não ser a Lady Gaga na Globo. Era 2010. E o Marcelo Tas enraizava a ideia da inexistência de uma saída política, Marcelo Tas dava papinha de bebê pra o Governador de São Paulo, para o homem da cartilha gay, para o pequeno reacinha do MBL que se tornaria deputado, para o ator pornô. Era 2010. Marcelo Tas era bem pago. Um gênio, hã? Era 2010. Era 2012. Era 2014. 2014. Sabe-se o que aconteceu. A Petrobrás. Ah! A Petrobrás. Maior patrimônio brasileiro de sempre, a estatal era um tipo de monstro comedor de criança que acabaria com nossa vida. A empresa símbolo do Brasil como algo a ser dizimado. O brasileiro com ódio de si mesmo. A meritocracia. A incapacidade incutida. Você não consegue por não querer. Whatsapp? Mediocridade e desinformação e ódio e figuras como o guru astrólogo remultiplicadas e internalizadas na cabeça do compatriota trabalhador. Obrigado, homem da barba, por todos os anos sem investir na educação básica, por enriquecer as redes de TV que lhe derrubaram, por não enfrentar o imperialismo. Você tem méritos, sabe-se, mas sem passar pano. A esquerda lacra e dança funk que fala de comer cu e boceta. Esqueceram da Lady Gaga. Dako é bom. O funk como causa. O funk como manifesto político, até mesmo. Representatividade, né? O homem da cartilha gay faz palestras em círculos militares. Poker face. Surgem os Adoradores da Rota, os fanáticos por Exército e Armas que dizem que não há sensação melhor do que matar gente. A esquerda canta funk. Demoniza os agentes de segurança pública, generaliza, solta a franga. A Direita enxerga esse flanco. Pastores. PASTORES começam ir em delegacias prestar qualquer tipo de serviço de atendimento para policiais. Causam comoção, ganham respaldo. Arma ainda é poder. Militares ainda são poder. A Esquerda não viu, passou. O flanco cresce, invadido pela classe média e também pela baixa, a qual perdera o diálogo com a esquerda e com o homem da barba. Pessoas na Paulista, grande centro do entreguismo. Batem continência para a PM, dão as mãos, cresce o flanco. O fenômeno coxinha x mortadela espraia-se. É 2016. Garotos xingam pessoas de comunistas na rua. Já ganhou seu lanchinho? O guru filosofal dos astros ri mijando em um peniquinho de plástico. A substituta do homem de barba desce a rampa com cara de bunda, sem resistência alguma. Lacrou? O super herói da Lava Jato torna-se o Rei do Brasil. O homem da barba aceita ser preso. Os engravatados do partido do homem da barba seguem suas vidas. Vida que segue. O homem da cartilha gay torna-se presidente do Brasil. Era 2010. 100 mil mortos. Era 2010. 100 mil mortos. Era 2010. 100 mil mortos. Eu fui essa esquerda. A culpa é minha. E sua também. 2010. 100 mil mortos. Vamos aprender.

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