O diretor

O cineasta manteve o orgulho de fazer o filme, por mais que soubesse já não ser possível. Considerava-se cineasta, um documentarista. Iria filmar sobre as criaturas que saíam do Córrego do Mandaqui. Um doc.-Terror. Um art-doc-Terror.

Câmeras haviam captado monstros saindo do Córrego durante à noite, perninhas alongadas e passos de crústaceo. Embora o povo tivesse conseguido por meio de abaixo-assinado – anos de luta! – o início das obras de tubulação do córrego para data próxima – ironia do destino, bem no dia planejado para o início das filmagens – o documentarista desrespeitou a voz popular. Por meio de sua influência, fez um escândalo midiático sobre a importância do filme e a ignorância provinciana da região. Em vídeos e memes, os modernos abraçaram o ideal e legitimaram a dizer o quão humano aquilo seria, o córrego que soltava monstros como alegoria da alma miserável do lugar, o close devastador no olhar do brasileiro médio medrado pelas criaturas noturnas que poderiam pular em seu quintal. Quando a coisa esquentou, e meninos e meninas jovens com placas de protesto começaram a ocupar o córrego, o cineasta sumiu.

Não havia mais sinal do cineasta-documentarista, e a polícia investigou. Mas, pelo viés iconoclasta e de temperamento variável do homem, entrou-se no mérito de que teria se afastado para entrar em bebedeiras eternas ou alguma outra de suas excentricidades. Até mesmo os membros da produtora confirmavam a versão, elogiando o cineasta por meio das mídias sociais como um “manifesto-vivo”.

Depois de muitos anos, o documentarista virou mesmo lenda. Surgira até mesmo produto de empresa renomada do streaming internacional sobre o tema. Era um documentário sobre um cineasta que supostamente tinha sido enterrado vivo na margem de um córrego. Câmeras de prédios, casas e comércios do arredor, que identificariam a movimentação, foram todas desligadas ao mesmo tempo na noite em questão, aumentando o mistério e a audiência. Não havia pista, exceto pela que passava agora acima do antigo Córrego. O troço foi um dos maiores sucessos da plataforma, e enfim o diretor entrava para a história do cinema provando que no Mandaqui o Terror é muito mais embaixo.

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