Cecilia Brunet – O Amor de um Crime

– Me dê uma razão para não te matar, Judas!
– Hum. Um momento. SPA, salão de beleza, joias milionárias, vinte e quatro viagens para a Europa e dois gatinhos persas.

Cecilia Brunet roçou a arma no corpo de Armando, fazendo aquelas feridas bizarras ferverem. “Você acha que eu estou brincando? Eu não estou!”, sussurou no ouvido do marido. Ela passou o dedo na pele áspera do homem, desceu e subiu acompanhando as gotinhas de suor.

– Olha só, lixinho. Um bom motivo, você depila as costas. Seu merda! Isso parece pele de peixe! Na cama, embaixo de você, me sentia a rainha do mar! Sendo fodida por um homem-peixe! Um homem peixe! Que tesão você quer que eu sinta assim? Tirando a primeira vez que a gente fodeu, nunca mais consegui gozar, Armando: o homem-peixe chifrador!

– Querida, sejamos razoáveis, você teve lá seus casos. Agora, vem aqui e me solta! Esse couro tá machucando meu braço e eu preciso mijar!
– Calma, fica aí, olha pra cá.

Cecilia Brunet colocou a arma em sua vagina. Cecilia Brunet começou a roçar a entradinha com o cano frio da arma. “Olha, olha aqui, seu sacana!”, ela ordenava. Armando, sentindo um tesão confuso, ficou a observar a esposa fazer o que fazia.

Há algum tempo, Cecilia Brunet caminhava pelas avenidas próximas ao apartamento de Armando. Um carro sport, parado em uma viela obscura, estava a tremer, dando um swing malemolente para a solidão daquele beco.

Cecilia Brunet, sapato social verde combinando com o uniforme da empresa, ficou espantada com aquele carrinho que parecia querer se comunicar. Um carrinho de desenho animado. Como em duelo de faroeste, sacou a  agulha de tricô azul clara que prendia seu cabelo e apontou para o veículo. Uma arma. Mas apontou de longe, pois tinha medo de tomar um susto e seu coração já batia em rajadas. Cecilia Brunet arrumou a rosa que trazia no peito, exigência da empresa em todas as sextas (pra descontrair o ambiente!), tomou coragem e deu mais alguns passos. Quanto mais perto chegava, mais alucinado o carrinho ficava, tremia loucamente, carrinho de Roger Rabbit. E  agora, senhores, o carro gritava! Gritava possuído. Possuído pelo demônio de duas moças de cabelos de anjo – quase platinadas, porém, com várias partes do corpo avermelhadas, tapas na bunda, trocas de fluidos e cores e carnes –  e pelo demônio Armando. “Armando, seu filho de uma puta!”

E foi a frase aspeada que Cecilia Brunet berrou quando a janelinha do veículo quebrou com uma pedrada. “Na cama com Madonnas”, pensou ela em devaneios. Armando ficou com cara de ridículo, pois vestia apenas um suspensório. Suas duas lindas, vestidos curtos, vermelhos, de lã, o outro de tecido incerto, apertado, brilhoso, uniformezinho? Pernas por todo lado, polvo com unhas bem feitas, descascadas, malemá, apalpando todo o carro em busca de espaço e criando posição no improviso safado. Peladas, manchas estranhas, pintas, pelos e coisa do tipo.

– Armando! Esse couro que está machucando você, querido, é pela bosta que você fez! Comigo?! Comigo?

Era certo que um dia Armando iria copiar a cena. Rocco, com seu corpo libidinoso, vivia com duas garotas loiras, nórdicas, que tinham carinha de menina inteligente e levada da breca. Nos confins da mente de Armando, tal cena se repetia e repetia a todo o momento. Rocco e as nórdicas. Estavam eles em um quarto desses de república estudantil, vários quartinhos enfileirados. Rocco estava com essas duas aí. Fodia, lambuzava, molhava, tremia, plantava bananeira e se revirava o dia inteiro com as duas.

Até a capa do DVD dava-lhe tesão. Rocco pelado de suspensório e as duas meninas de vestidinho vermelho, escondendo as partes baixas como Marylin Monroe. A imagem era tão forte na cabeça do homem que qualquer cereja, morango, chapeuzinho ou coisa que fosse vermelha lhe colocava louco. Armando do intenso pensamento. Por vezes, fechava os olhos e rolava o filme em sua mente enquanto suas pernas e braços deslizavam no corpo da esposa.

Só assim conseguia gozar, com os olhos fechados, vendo Rocco e as nordiquinhas.
Brunet colou a boca da arma perto da orelha do vagabundo Armando, que fez uma cara medonha. Não havia bala, a arma desarmada. Cecilia a gargalhar. Mas, disse ela, “as balas estão por vir”.

– Meu deus! Você se mijou, covarde! Armando, por que raios você guarda uma arma sem balas em casa? É mais um fetiche? Você assiste filme pornô de mafioso também?
– Não querida, não. Por favor, você está louca. Me tira daqui, está doendo muito.
– Ah, está doendo? Jura!? Hoje foi dia de compra do mês, comprei balas, balas, comprei aqueles lanches que você gosta…

A mulher possessa puxou ainda mais o nó de couro que juntava as mãos de Armando, fazendo-o espernear. Era tudo tão louco e intenso que o Rocco Lado B acabou virando-se de lado e se resignando, deixando apenas suas frágeis nádegas para o alto, bem molinhas, como pessoa que lê romances sabrinescos de bruços na cama.
“Eu não sei até onde vai isso”, pensou Cecília. Mas, por vias das dúvidas, desafiou-se a fazer. Foi lá embaixo, pegou uma régua de ferro e voltou. “Armandinho, está dormindo, delinquente, está desistindo?”. Meteu-lhe vinte e quatro reguadas na bunda, deixando-lhe vinte e quatro vergões. Armando chorava, mas nem gritar mais gritava, pois a moça tinha lhe enfiado uma bola de borracha quase goela abaixo.

– Isso paga as vinte quatro viagens para Europa! Sin verguenza! Achou suas nórdicas lá? Você sumia! Pulha!

Com a bunda vermelha e queimando, Armando só tinha a opção de olhar para a Lua, único ponto luminoso na janela do quarto. Balbuciava no colchão algumas palavras sem nexo, não conseguia pensar. Cecilia tomara-lhe todo o raciocínio com a verborragia e seus movimentos frenéticos.

Cecilia Brunet ainda o mantinha vivo,  armada, prestes a lhe matar. Ouviu passos na escada, era ela. Subia apressada. Empurrou a porta com força assustando Roni, o gato, que, num pulo, voou pela janela de medo. “Armando! Vamos ouvir Tus Ojos! Eu trouxe o toca-discos! Você cantava Tus Ojos para mim na praia, lembra?”. Após alguns segundos, ela ficou meio que observando o que acabara de falar, com olhos de tonta. Então gritou. “MEU DEUS! Você estava ouvindo isso no carro aquele dia!”. Ajoelhou-se.

Ela olhou para as coisas perdidas ali, um absorvente, uma lata de cerveja, a sujeira do tapete que machucava seus joelhos. Empurrou o rádio com os pés, pra perto da tomada. Deitou e esticou o braço, enfiando o CD.

Tus ojos,
lindos son tus ojos
la primera vez que los vi
supe por fin
qué era el amor.

 – Deixa eu contar… – disse abrindo uma lata de cerveja. – Então, você lembra que um dia eu fui com seu amigo te encontrar? Eu não cheguei nem perto, mas, não sei… Ao mesmo tempo eu me senti traindo você. Sabe por quê? Por que eu olhava como quem queria mesmo… E ele fazia o mesmo. Aí a gente entrou no trem, ele me pegou bem firme pelo braço e ficou olhando pra mim, frente a frente. Eu abaixei e fiquei com o rosto colado no peito dele, senti que ele ficou excitado, e eu também, claro. Mas nada… Nem perto de nada eu cheguei a fazer. Ele era grande, quando encostei meus joelhos nele senti que era grande, maior do que você. Eu devia ter trepado com ele. Seu bosta…

Quisiera el tiempo

poder regresar

y revivir la ocasión

Cuando te ví

frente de mi

yo me enamoré 

O cano envolvido em suas mãos. Ao ver Armando naquele estado, de bruços, pernas abertas na cama, riu da situação. Por vezes colocava a mão no seio esquerdo, acariciando-o por uns momentos. “Carinho é tão bom, eu posso me fazer carinho”, pensou. Agora, acariciava e massageava os dois seios. Passava as mãos no pescoço, deslizando pelas laterais do corpo. Achou os rins doloridos, cutucou-os com a ponta das unhas, calafrios subiam e desciam por toda a pele.


– Armando, eu já não preciso mais de você. Olha pra mim! Eu sou uma mulher completa! Digna e completa, firme, enxuta! – disse apontando a arma para a cabeça do homem.

Tus ojos

benditos son tus ojos

antes de irme

déjame ver 

una vez más…

Tus ojos

tus ojos

tus ojos

tus ojos

Tus ojos

tus ojos

tus ojos

tus ojos…

Empunhou o revólver sem destreza à frente do nariz do marido, agora revirado à força para cima e mexendo-se como baratinha. Cecília Brunet puxou o gatilho.

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